A Genética Que Me Coube em Sorte
Houve um tempo em que a genética fazia parte do
currículo.
Não vinha escrita no cartão de visita, mas estava
lá. Bastava um apelido, uma família, uma fotografia antiga ou uma conversa à
mesa para se perceber de onde vinha cada um e, sobretudo, de onde dizia vir.
Havia quem tivesse nascido com aquilo a que se
chamava, com alguma ironia, “boa genética”. Não era apenas uma questão de
aparência física. Era uma herança muito mais vasta: o nome de família, a
educação, os modos, os conhecimentos, as relações, os bens e, sobretudo, aquela
espécie de segurança tranquila de quem nunca precisou de explicar muito bem
como chegou onde chegou.
A genética era uma espécie de rótulo invisível.
E havia quem gostasse de o exibir.
Não necessariamente por aquilo que tinha feito,
mas por aquilo que tinha recebido. O mérito podia ser hereditário, ou pelo
menos assim parecia. Havia pessoas que apresentavam a sua origem como quem
apresenta uma condecoração. Um apelido conhecido, uma família respeitável, uma
casa de família, uma fotografia com alguém importante — tudo podia servir para
acrescentar valor à embalagem.
Depois vieram os tempos modernos.
E, curiosamente, a genética deixou de estar na
ordem do dia.
Na era dos influencers, das redes sociais,
do empreendedorismo e das startups, já não basta ter nascido bem. É
preciso parecer que se nasceu para vencer.
A velha genética foi substituída por uma nova
espécie de pedigree: o sucesso.
Agora já não se pergunta tanto “de quem é
filho?”. Pergunta-se o que faz, quantos seguidores tem, que empresa criou,
quanto vale a startup, onde esteve de férias, com quem almoçou e,
sobretudo, se consegue transformar tudo isso numa fotografia suficientemente
convincente para publicar.
A diferença é que a antiga genética era recebida.
A nova tem de ser exibida.
E, por vezes, inventada.
Há quem tenha transformado a própria vida numa
espécie de campanha publicitária permanente. Cada refeição é conteúdo, cada
viagem é uma experiência, cada reunião é uma oportunidade de fotografar uma
mesa com um computador aberto, cada ideia é uma “visão”, cada negócio é uma
“startup” e cada dificuldade é apresentada como mais um episódio da inevitável
caminhada rumo ao sucesso.
Já não é preciso possuir um património.
É preciso possuir uma narrativa sobre o
património.
Não é indispensável ter uma empresa.
Basta ter uma fotografia diante de um laptop,
um nome em inglês e algumas palavras como “empreendedorismo”, “inovação”,
“liderança” e “disrupção”.
O mundo mudou e os sinais exteriores de estatuto
também.
Antigamente, alguém podia exibir discretamente a
casa, o carro, o apelido ou as relações familiares. Hoje exibe-se a agenda, os
aeroportos, os hotéis, os restaurantes, os eventos, as conferências e,
naturalmente, a própria opinião.
Tudo é prova de sucesso.
Ou, pelo menos, tudo deve parecer prova de
sucesso.
Talvez por isso a frase “a genética que me coube
em sorte” tenha perdido alguma utilidade. Já ninguém quer admitir que teve
sorte à partida. Isso seria quase uma confissão de pecado.
Hoje prefere-se dizer que tudo foi conquistado.
Que se começou do zero.
Que houve apenas trabalho, determinação, visão e
coragem.
O curioso é que, em muitos casos, o “zero” de uns
é bastante diferente do “zero” dos outros.
Há quem comece do zero com uma família atrás.
Há quem comece do zero com uma casa.
Há quem comece do zero com contactos.
Há quem comece do zero com uma educação
privilegiada.
E há quem comece mesmo do zero.
Mas todos podem contar a mesma história nas redes
sociais.
Talvez esta seja uma das grandes mudanças do
nosso tempo: antigamente, o estatuto procurava esconder a sua origem; hoje,
procura esconder o seu esforço.
Porque admitir que se recebeu alguma coisa é
pouco moderno. O mundo contemporâneo prefere acreditar que cada pessoa é
inteiramente autora de si própria.
É uma ideia bonita.
E, como muitas ideias bonitas, é apenas
parcialmente verdadeira.
Ninguém escolhe a família em que nasce. Nem a
saúde, nem o lugar, nem a época, nem as circunstâncias, nem muitas das
oportunidades que encontrará pela vida fora.
Também ninguém escolhe inteiramente a sua
“genética”.
Mas todos podemos escolher, em maior ou menor
medida, aquilo que fazemos com aquilo que nos coube.
Talvez seja aí que esteja a verdadeira diferença.
Não na genética que nos coube em sorte.
Mas naquilo que fomos capazes de construir com
ela.
E talvez fosse bom recuperar alguma humildade
nesta matéria.
Porque há pessoas que receberam muito e fizeram
muito.
Outras receberam muito e fizeram pouco.
Há quem tenha recebido pouco e conseguido
extraordinariamente.
E há quem tenha recebido pouco e, ainda assim,
tenha deixado uma marca que vale muito mais do que qualquer startup,
qualquer número de seguidores ou qualquer fotografia cuidadosamente encenada.
No fundo, talvez a verdadeira riqueza não esteja
na genética que nos coube.
Está naquilo que deixamos depois de ela cumprir o
seu papel.
Porque, no fim, a genética é apenas a embalagem.
O resto — aquilo que somos, aquilo que fazemos e
aquilo que deixamos nos outros — é obra nossa.
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