quarta-feira, 28 de outubro de 2026

 NINGUÉM GOSTOU DO QUE VIU

Uma manifestação pacífica, no Porto, dos chamados «acampados», com meia dúzia de tendas e uma ou duas dezenas de manifestantes, acabou por descambar numa demonstração de autoridade das forças policiais, que viriam a repetir o «feito» nas manifestações de Lisboa.

Não se vislumbra qualquer razão que justificasse a atuação policial que esteve na origem dos confrontos registados. Faltou ponderação, diálogo e pedagogia para lidar com «meia dúzia» de manifestantes. Diz-se que o Governo mandou «carregar». Se assim foi, fê-lo sem razão.

O povo do Porto e o de Lisboa demonstraram, pouco depois, que não seria através da violência ou da repressão que se calariam os seus protestos. E foi bonito de ver: milhares de pessoas saíram à rua e fizeram ouvir a sua voz, perante autoridades que, tristemente, se mantiveram em silêncio perante uma tão grave afronta aos princípios democráticos.

Esta deriva antidemocrática, agravada pelo ruidoso silêncio dos órgãos de soberania, retrata bem a fragilidade política de quem governa o país.

A causa do descontentamento é conhecida e não se resolve de um dia para o outro. Todos o sabemos. Ou todos o deveríamos saber. As atitudes musculadas não resolvem os problemas: apenas alimentam a revolta e aprofundam o descontentamento.

As tendas são as mesmas que outros, no passado, utilizaram para os seus protestos. Para uns, houve compreensão, tolerância e, quem sabe, pedagogia. Para estes, houve bastonadas e outras agressões. O que mudou? Terá mudado o sentido democrático de quem governa?

O Governo olhou para o que se passou em Espanha, Itália, França, Albânia e noutros países e terá entendido que deveria importar o mesmo modelo de atuação. Fez mal. Muito mal.

As manifestações do Porto e de Lisboa foram ordeiras e pacíficas. Nada justificava a «carga» policial. O que se exigia era contenção, capacidade de diálogo e respeito pelo direito de manifestação.

Falta cultura democrática ao atual Governo. Tudo é levado ao limite. Não há diálogo: há imposição. Não há sentido de justiça: há desorientação. E, acima de tudo, há silêncio.

Mas mais impressionante — e até desmoralizadora — foi a ausência do Presidente da República. Perante acontecimentos que suscitaram tanta indignação e levantaram sérias dúvidas sobre o respeito pelos direitos fundamentais, esperava-se uma palavra sua. Um sinal de preocupação. Uma intervenção que lembrasse que a liberdade de manifestação não é uma concessão do poder, mas um direito dos cidadãos.

Ninguém gostou do que viu. Mas, mais grave do que aquilo que vimos nas ruas, é o que não ouvimos de quem tem a responsabilidade de defender a democracia.

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