𝐕𝐀𝐌𝐎𝐒 𝐄𝐍𝐓𝐑𝐀𝐑 𝐍𝐀 𝐄́𝐏𝐎𝐂𝐀 𝐃𝐎𝐒 𝐈𝐍𝐂𝐄𝐍𝐃𝐈𝐎𝐒 𝐂𝐎𝐌 𝐄𝐒𝐓𝐀 𝐆𝐎𝐕𝐄𝐑𝐍𝐀𝐂̧𝐀̃𝐎?
Volvidos mais de dois anos desde a entrada em funções deste Governo da AD, o país claudica em praticamente todos os setores da vida política e social. Torna-se cada vez mais evidente a incapacidade e impreparação dos governantes para enfrentar as exigentes responsabilidades que assumiram.
É difícil aceitar que os responsáveis políticos, pela sua fraqueza
ideológica e falta de competência, estejam a fragilizar pilares essenciais do
Estado de Direito Democrático. Destacam-se, pela negativa, áreas estruturais
como a saúde, a educação, a habitação, a segurança interna, o ordenamento do
território e os transportes. Mais preocupante ainda é a forma insensata, por
vezes cruel e até desumana, como se tem processado a proteção das populações
face às calamidades climáticas que afetam Portugal.
A ausência de capacidade de gestão da coisa pública é hoje
demasiado evidente para ser ignorada. Dir-se-á que o Governo enfrentou circunstâncias
difíceis, nomeadamente desastres naturais. É verdade. Mas essas circunstâncias
apenas expuseram, de forma clara, a sua impreparação.
Passados mais de 100 dias, muitas das populações afetadas
continuam sem acesso efetivo aos apoios anunciados, vivendo em condições
indignas. E aqui importa sublinhar um facto que o Governo não consegue
esconder: são os próprios autarcas, no terreno, a denunciar o falhanço.
De norte a sul do país, multiplicam-se os alertas de presidentes
de câmara e juntas de freguesia que, confrontados diariamente com o desespero
das populações, assumem publicamente aquilo que o poder central tenta
relativizar: os apoios não chegam, os processos não andam e as respostas não
existem.
Há municípios que ainda aguardam validações técnicas, outros que
se perdem em sucessivos pedidos de documentação, como se as vítimas de
incêndios e intempéries tivessem de provar, vezes sem conta, aquilo que é
evidente. Autarcas relatam candidaturas devolvidas por detalhes formais, prazos
irrealistas e plataformas digitais que mais parecem obstáculos do que
instrumentos de apoio.
Entretanto, são as autarquias que, com meios próprios e já
exauridos, tentam dar resposta imediata: realojamento, apoios de emergência,
reparações mínimas. Fazem-no muitas vezes substituindo-se ao Estado, sem
garantias de reembolso, num esforço que compromete as suas próprias contas e a
sustentabilidade da ação local.
A explicação
oficial continua a ser a mesma: a burocracia.
“Uma ova”. O que existe é um sistema desarticulado, incapaz de
transformar anúncios políticos em soluções concretas. É uma máquina
administrativa que serve mais para adiar do que para resolver, mais para
justificar do que para agir.
E, mais grave ainda, é a ausência de coordenação entre
ministérios, organismos e estruturas técnicas, que deixa autarcas entregues a
um labirinto institucional onde ninguém decide e ninguém assume
responsabilidades.
Basta analisar os programas e “programinhas” de apoio para
perceber que, na prática, representam pouco mais do que uma mão cheia de nada —
promessas diluídas em formulários, regulamentos confusos e prazos
intermináveis.
Enquanto
isso, as populações esperam. E desesperam.
E no meio desta
catástrofe, o autarca da capital, propõem-se transformar o Parque Eduardo VII
num gigante piquenique com cestos Premium, o «Chic-Nic» de luxo em Lisboa, com
preços de entrada entre os € 150,00 a € 300,00, já no próximo domingo.
Definitivamente,
é demasiado mau para ser verdade.
Neste momento,
Portugal virou caricatura. País dilacerado com populações há míngua, em contraste
com guetos de piqueniques de luxo.
E perante este cenário, a questão impõe-se com ainda maior
urgência: estaremos preparados para enfrentar mais uma época de incêndios com
este nível de governação — e com um Estado que falha quando mais é preciso?