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𝐈𝐝𝐞𝐧𝐭𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞
𝐝𝐞 Género – 𝐎𝐫𝐠𝐮𝐥𝐡𝐨
𝐞
𝐏𝐫𝐞𝐜𝐨𝐧𝐜𝐞𝐢𝐭𝐨
Há uns anos,
perguntam ao maestro António Victorino de Almeida se um determinado tipo de
música era considerada música clássica. Ele defendeu, então, que a expressão
"música clássica" é redutora e, em rigor, não existe da forma como o
público em geral a entende. O argumento principal do maestro assenta em duas
premissas: a primeira é a de que o termo "clássico" remete
frequentemente para algo antigo, empoeirado ou confinado a museus. O maestro
prefere designar as obras de compositores como Beethoven, Bach ou Mozart por
"música erudita" ou simplesmente "música de arte",
enfatizando que são criações vivas e intemporais. A segunda é que, quando
ouvimos e apreciamos estas composições, elas não se limitam a um período
específico (o Classicismo); abrangem várias eras, como o Barroco, o Romantismo
ou o Modernismo.
Podemos dizer,
portanto, seguindo os ensinamentos do maestro, que a música se divide em
grandes géneros e estilos, que variam conforme a cultura, a época e os
instrumentos utilizados: Música Erudita e Tradicional, Música Popular Moderna
(Pop, Rock, Jazz, Blues), entre tantos outros. Esta diversidade musical sempre
é acolhida e percebida por todos, sabendo-se que nem todos são apologistas dos
mesmos géneros. Uns preferem a música erudita, outros a música tradicional e
outros, ainda, a música popular moderna.
Depois,
existem os chamados desvirtuamentos do género musical, como, por exemplo, a
música “pimba”. Sobre esta, o maestro Victorino de Almeida, na sua visão
integradora, sublinha que todas as manifestações musicais refletem uma dada
realidade sociocultural, independentemente da sua complexidade académica. Seja
como for, o corpo comum é a música enquanto arte. Daqui nascem vários géneros
musicais, cada um com a sua própria identidade de género.
O mesmo se
passa com a pintura. Historicamente, a Academia de Belas-Artes estabeleceu uma
hierarquia para estes géneros, que vão desde os temas mais nobres até aos mais
quotidianos: a Pintura de História (considerada a categoria máxima durante
séculos), o Retrato (focado na representação de seres humanos ou animais), a
Pintura de Género (cenas do quotidiano), a Paisagem e a Natureza-Morta. Mais
tarde, surge a Rutura Moderna com o abstracionismo. No século XX, a arte
moderna quebra estas barreiras através da Pintura Abstrata, um estilo que
rejeita a representação de objetos reais, focando-se apenas em linhas, formas,
cores e texturas. Também aqui, o corpo comum é a pintura enquanto arte. Daqui
nascem vários géneros de pintura, com a sua própria identidade de género.
Isto tudo para
chegarmos ao tema central deste escrito: a identidade de género enquanto
reivindicação humana. Será que os humanos (homem ou mulher) não podem
reivindicar para si uma determinada identidade de género? Será que um homem ou
uma mulher não podem, intrinsecamente, sentir-se expressos num género que não
aquele que a convenção social rigidamente lhes atribui à nascença?
A raiz da
confusão atual reside no erro de confundir o suporte físico com a expressão
artística. O sexo biológico — determinado pela natureza através de cromossomas,
hormonas e anatomia — é o equivalente à tela em branco na pintura ou à onda
sonora na física. É a base tangível, o dado biológico e imutável da nossa
espécie. Por outro lado, a identidade de género é a forma como o indivíduo
processa, sente e manifesta a sua existência no mundo. É a "composição
musical" ou o "estilo pictórico" de cada um. Assim como o
Maestro Victorino de Almeida recusa enclausurar a riqueza da música erudita na
gaveta poeirenta do "clássico", também o ser humano não pode ser
reduzido a uma categorização binária e estanque se a sua vivência interna clama
por outra harmonia.
Se aceitamos
com naturalidade que a pintura evoluiu da rigidez académica para a total
liberdade do Abstracionismo — onde o que importa são as linhas e as texturas da
alma, e não a reprodução literal da realidade —, por que razão exigimos aos
humanos uma conformidade geométrica que já não exigimos à arte?
A identidade
de género não anula o sexo biológico, tal como o Jazz ou o Rock não anulam a
existência da escala musical ou das propriedades físicas do som. Pelo
contrário, expandem-na. Até as manifestações mais fora do padrão ou
incompreendidas pelas elites — como a analogia com a música pimba ou o
abstracionismo — têm o seu lugar legítimo como reflexo de uma dada realidade
sociocultural e psicológica. São identidades próprias.
O preconceito nasce quando a sociedade confunde o instrumento (o corpo) com a melodia (a identidade). O orgulho, por sua vez, reside na coragem de cada ser humano assumir a sua própria partitura e pintar a sua própria tela, exigindo o direito de ser lido, ouvido e respeitado pelo género com que genuinamente se identifica. Afinal, quer na arte, quer na vida, a beleza nunca está na uniformidade, mas sim na infinita capacidade de criação.