ESTÁ NA HORA DE PROFISSIONALIZAR O MERCADO DE ARRENDAMENTO

O mercado de arrendamento em Portugal continua a funcionar, em larga medida, de forma amadora. Assenta, demasiadas vezes, numa relação direta entre duas partes — senhorio e inquilino — sem que exista, entre elas, uma estrutura profissional de gestão, acompanhamento e mediação que garanta transparência, segurança e confiança.
Com exceção de determinados segmentos, designadamente os geridos por fundos imobiliários ou por outros operadores de dimensão significativa, o arrendamento habitacional continua a ser encarado como uma relação essencialmente privada, em que cada proprietário gere o seu imóvel como entende e cada inquilino procura defender-se dos riscos que associa ao senhorio. O resultado é uma relação frequentemente marcada pela desconfiança, na qual se alimenta o confronto entre o mito do mau inquilino e o mito do mau senhorio.
É evidente que existem maus inquilinos e maus senhorios. Mas será que o problema está apenas nas pessoas ou também na forma como o mercado está organizado?
Um mercado sem estrutura profissional
Noutros setores da economia, a locação de bens é exercida através de operadores especializados, estruturas de gestão, mecanismos de fiscalização e procedimentos de resolução de conflitos. Pensemos, por exemplo, no aluguer de automóveis ou na locação de equipamentos. Existem empresas cuja atividade consiste precisamente em gerir contratos, avaliar riscos, acompanhar o cumprimento das obrigações e assegurar uma relação organizada entre quem disponibiliza um bem e quem dele necessita.
No arrendamento habitacional, pelo contrário, o proprietário é frequentemente obrigado a assumir, por sua conta e risco, um conjunto de tarefas para as quais pode não ter preparação, disponibilidade ou vocação: selecionar candidatos, avaliar a sua capacidade financeira, elaborar contratos, gerir pagamentos, acompanhar a conservação do imóvel, tratar de incumprimentos e resolver conflitos.
Do outro lado, o candidato a arrendatário enfrenta, muitas vezes, exigências pouco uniformes, critérios de seleção que desconhece e uma relação contratual em que nem sempre dispõe de informação suficiente para conhecer os seus direitos e obrigações.
É neste vazio de profissionalização que prosperam a insegurança e a desconfiança. E é também aqui que se encontra uma parte do problema da oferta habitacional.
Sabemos que existem imóveis devolutos ou subutilizados que não chegam ao mercado de arrendamento. As razões são diversas: problemas de conservação, heranças por resolver, custos de reabilitação, incerteza quanto à rentabilidade e receio de incumprimentos ou de dificuldades na recuperação do imóvel.
Não seria sério atribuir todas estas situações à falta de profissionalização. Mas seria igualmente errado ignorar o seu peso.
Para muitos proprietários, sobretudo os que possuem apenas um ou dois imóveis, arrendar não é uma atividade económica organizada: é uma fonte potencial de rendimento acompanhada de riscos e responsabilidades que não sabem, ou não querem, gerir. Perante essa incerteza, a opção de manter a casa fechada pode parecer-lhes menos arriscada do que colocá-la no mercado.
A questão que devemos colocar é simples: quantas destas casas poderiam ser disponibilizadas para arrendamento se os proprietários tivessem ao seu dispor estruturas profissionais, acessíveis e credíveis, capazes de gerir os imóveis e de acompanhar os contratos?
Não se trata de prometer que a profissionalização resolverá a crise da habitação. Trata-se de reconhecer que a oferta não depende apenas da existência física de casas, mas também das condições em que os proprietários estão dispostos a disponibilizá-las.
Importa esclarecer um equívoco. Defender a profissionalização do arrendamento não significa defender a concentração da propriedade imobiliária em grandes fundos ou em empresas com capacidade financeira para adquirir centenas de imóveis.
Pelo contrário: um mercado profissionalizado pode e deve permitir que os pequenos proprietários continuem a disponibilizar as suas casas, sem terem de assumir pessoalmente todas as tarefas e todos os riscos da gestão.
A solução passa por desenvolver um setor de administração e gestão profissional de imóveis para arrendamento, acessível a proprietários de diferentes dimensões. Entidades especializadas poderiam assegurar a preparação dos contratos, a gestão das rendas, a manutenção dos imóveis, o acompanhamento dos incumprimentos e a mediação de conflitos, dentro de regras claras e transparentes.
Os proprietários manteriam a titularidade dos imóveis e as decisões que legalmente lhes competem. Os inquilinos beneficiariam de interlocutores identificáveis, procedimentos uniformes e informação clara sobre as condições contratuais.
A profissionalização não eliminaria os conflitos, mas poderia prevenir muitos deles e permitir que os restantes fossem resolvidos de forma mais rápida e equilibrada.
Esta transformação não deve ficar inteiramente dependente da iniciativa privada. Exige um enquadramento regulatório adequado, mecanismos de fiscalização proporcionais e instrumentos de mediação e resolução de litígios que sejam acessíveis a ambas as partes.
Poderia, por isso, ser criado um modelo de operadores de gestão do arrendamento sujeitos a requisitos de qualificação, transparência, responsabilidade profissional e fiscalização. A certificação deveria garantir padrões mínimos de qualidade, sem se transformar numa barreira burocrática que afastasse os pequenos operadores ou encarecesse desnecessariamente o serviço.
Também as câmaras municipais poderiam desempenhar um papel relevante. Para além da gestão direta do seu parque habitacional, poderiam promover estruturas locais de intermediação e gestão do arrendamento, mobilizando imóveis privados para o mercado mediante programas voluntários, condições contratuais definidas e garantias adequadas para proprietários e arrendatários.
Estas estruturas não teriam de substituir o mercado privado nem de assumir a gestão de todos os contratos. Poderiam funcionar como entidades de confiança, aproximando a oferta da procura e ajudando a mobilizar habitações que, de outra forma, permaneceriam desocupadas.
Naturalmente, a criação destas estruturas teria de ser acompanhada de regras de funcionamento, financiamento sustentável e mecanismos de avaliação dos resultados.
O debate sobre o arrendamento em Portugal tende a concentrar-se nas alterações legislativas: prazos contratuais, atualização de rendas, cauções, garantias, procedimentos de despejo ou proteção dos inquilinos. Todas estas matérias são relevantes e devem ser discutidas.
Mas há uma questão anterior que merece igual atenção: queremos continuar a ter um mercado assente, em grande medida, na relação individual entre proprietários e inquilinos, ou queremos construir um setor organizado, profissional e credível?
Um mercado profissional não dispensa a lei. Precisa dela. Mas precisa também de entidades que a conheçam, apliquem e respeitem, de procedimentos transparentes e de mecanismos que permitam prevenir conflitos em vez de apenas os resolver nos tribunais.
A habitação não é um bem qualquer. É uma necessidade essencial e, simultaneamente, um investimento de longo prazo. A sua disponibilização para arrendamento exige, por isso, um modelo que concilie a segurança dos proprietários com a estabilidade dos arrendatários.
Está na hora de deixar de olhar para o arrendamento apenas como um confronto entre senhorios e inquilinos. O verdadeiro desafio é construir um mercado em que ambos possam confiar — e em que colocar uma casa para arrendar seja uma decisão económica razoável, em vez de uma aventura jurídica.
