Eleições Presidenciais
O “milagre” da multiplicação dos votos
Toda a gente sabe que, depois do 25 de Abril de 1974, as eleições de carácter personalista, como as presidenciais, formam maiorias que se esgotam no próprio ato eleitoral. Isto é assim porque eleitores de vários quadrantes políticos decidem votar num candidato pelas suas características pessoais e também políticas, independentemente do campo político a que o candidato pertence — ou não pertence.
É por isso que, esgotado o ato eleitoral e eleito o candidato, a maioria que se formou para a sua eleição dissolve-se no próprio dia. Os eleitores de um determinado quadrante político, diferente ou oposto ao do candidato, regressam ao seu espaço político de base após essa deriva conjuntural.
Esta eleição presidencial de 2026 foi, neste ponto, particularmente esclarecedora. Eleitores da extrema-direita, da direita democrática, do liberalismo, da esquerda e da extrema-esquerda uniram-se em torno de uma candidatura expressivamente vencedora. De certa forma — ainda que em muito menor grau — o mesmo se terá passado com os candidatos derrotados.
Seja como for, uma coisa é certa: as maiorias que se formam em torno de cada candidato, em eleições presidenciais, esgotam-se no próprio ato eleitoral. Por isso, dizer-se, por exemplo, que um determinado candidato teve quase um milhão de votos que o legitimam, por si só, a formar um movimento, é desconhecer a natureza sociopolítica dessa “maioria” que se formou.
Ou seja, esperar que o eleitorado heterogéneo que constituiu essa maioria conjuntural (extrema-direita, direita, liberais, independentes e alguma esquerda) se reveja no candidato para outras tarefas políticas que não as especificamente escolhidas é ter uma noção errada da eleição a que concorreu.
É quase o mesmo que um candidato que perdeu na segunda volta afirmar que está agora legitimado como líder de toda a direita em Portugal, sabendo que a sua “maioria” também foi formada pela extrema-direita, direita, liberais, independentes e alguma esquerda — se não mesmo extrema-esquerda. Será difícil admitir que eleitores de grande parte das famílias políticas representadas nessa maioria aceitem sequer ver-se representados, na atividade política em geral, pelo candidato derrotado.
Temos aqui dois exemplos de candidatos que não entenderam o carácter personalista das eleições presidenciais e que fazem uma extrapolação abusiva dos votos obtidos.
Muitas vezes, a votação num candidato derrotado não representa um apoio ideológico estrutural, mas sim um “voto de circunstância”. Pessoas de diferentes quadrantes votam num candidato apenas para tentar levar a eleição a uma segunda volta ou para marcar protesto contra o favorito. O voto é na pessoa e não no programa. Assim que a pessoa sai de cena (derrotada), esse capital político não se transfere automaticamente para o partido que a apoiou.
Diferente é o que sucede nas eleições legislativas, onde uma derrota pode ainda resultar num grupo parlamentar forte, que mantém viva e institucionalizada a “maioria” da oposição. Nas presidenciais, é “tudo ou nada”: o sistema é binário. Quem perde não ocupa um cargo de “Vice-Presidente da Oposição”.
Está difícil de entender para André Ventura e Cotrim de Figueiredo.