O “MERCADO DE ARRENDAMENTO” EM PORTUGAL: UMA FICÇÃO CONVENIENTE
Há muito que se fala do “mercado de arrendamento”
em Portugal como se estivéssemos perante um sistema económico funcional, regido
por leis claras de oferta e procura, onde agentes racionais interagem de forma
previsível e eficiente. No entanto, essa designação no nosso país merece, no
mínimo, ser questionada. Em rigor, o que existe em Portugal está longe de
corresponder a um verdadeiro mercado — e insistir nessa descrição pode ser não
apenas impreciso, mas profundamente enganador.
Num sentido económico estrito, um mercado
pressupõe condições bem definidas: agentes racionais, concorrência efetiva,
transparência na informação, formação de preços baseada na interação entre
oferta e procura e, não menos importante, profissionalismo por parte dos
intervenientes. Quando estes elementos falham, não estamos perante um mercado,
mas antes um simulacro — um pseudo-mercado onde predominam decisões erráticas,
informação imperfeita e comportamentos arbitrários.
É precisamente este o retrato do arrendamento em
Portugal. A esmagadora maioria dos senhorios não são operadores profissionais,
mas sim particulares que herdaram ou adquiriram um ou dois imóveis. Sem
formação específica, sem contabilidade estruturada de custos e riscos, e frequentemente
sem conhecimento das normas legais aplicáveis, estes proprietários fixam rendas
com base em critérios intuitivos: “o que o vizinho pede”, “o valor da prestação
bancária” ou simples perceções subjetivas de oportunidade.
O resultado é um sistema marcado por baixa
racionalidade económica. A informação é opaca e assimétrica: o senhorio
desconhece o valor justo da renda, enquanto o inquilino não tem meios para
avaliar se está a pagar acima do razoável. A concorrência é distorcida, com
imóveis de qualidade muito distinta a competir sem critérios claros, e com a
frequente opção de manter casas vazias em vez de ajustar preços. O
profissionalismo é residual e a transparência, em muitos casos, inexistente —
persistem contratos informais, rendas não declaradas e práticas que fragilizam
ambas as partes.
Neste contexto, falar de “mercado” é mais do que
um abuso conceptual; é um embuste discursivo. A palavra transporta consigo uma
ideia de legitimidade: sugere que os preços elevados são o resultado inevitável
de forças económicas naturais, quase como se fossem leis físicas. Mas essa
narrativa esconde uma realidade bem diferente — a de um sistema fragmentado,
dominado por decisões emocionais, comportamentos imitativos e, não raras vezes,
práticas abusivas.
As implicações desta constatação são relevantes
do ponto de vista jurídico e político. Se não existe um verdadeiro mercado,
então políticas baseadas na sua suposta racionalidade — como o simples aumento
da oferta ou a redução de impostos — podem revelar-se insuficientes. O problema
não é apenas quantitativo; é estrutural e comportamental.
Um senhorio profissional, sujeito a lógica
empresarial, tende a ajustar preços em função do mercado e a procurar maximizar
a ocupação. Já um senhorio não profissional pode optar por manter o imóvel
vazio por motivos subjetivos, indiferente à eficiência económica. Esta
diferença é crucial e ajuda a explicar por que razão certas medidas falham em
produzir os efeitos esperados.
Perante este cenário, impõe-se uma reorientação
das políticas públicas. A profissionalização do setor deve ser incentivada,
através de benefícios fiscais e da exigência de formação adequada. O amadorismo
predatório deve ser desincentivado, nomeadamente com maior tributação sobre
imóveis devolutos e fiscalização das condições de habitabilidade.
Paralelamente, o Estado pode e deve assumir um papel mais ativo, criando um
verdadeiro mercado institucional de arrendamento que funcione como referência e
introduza concorrência qualificada.
Em suma, persistir na ideia de que o arrendamento
em Portugal funciona como um mercado é perpetuar uma ficção conveniente.
Trata-se de uma construção discursiva que naturaliza disfunções profundas e
desresponsabiliza comportamentos individuais e coletivos. Enquanto o setor
continuar dominado por práticas amadoras e desestruturadas, o arrendamento será
menos um mercado e mais uma arena de poderes dispersos — uma realidade que
exige não apenas diagnóstico rigoroso, mas também coragem política para ser
transformada.