Do BES ao Novo Banco: o custo de fingir que o Estado não paga
Por
esta altura, há 12 anos atrás e a poucos dias do colapso do Banco Espírito Santo, o então Presidente da
República, Aníbal Cavaco Silva, garantia
confiança no sistema bancário e, em particular, no BES. A realidade
encarregou-se de demonstrar o contrário — não apenas quanto ao banco, mas
quanto à capacidade de supervisão e à transparência da informação disponível ao
mais alto nível do Estado.
Quando o BES
colapsou, em 2014, o Governo liderado por Pedro Passos Coelho sustentou que o
Estado não deveria intervir diretamente numa instituição privada.
A solução
encontrada — conduzida pelo Banco de Portugal — procurou precisamente isso:
evitar um resgate clássico com dinheiro do Orçamento. Nascia o Fundo de
Resolução, apresentado como um mecanismo financiado pelo setor bancário.
Mas essa
distinção revelou-se, com o tempo, mais formal do que real.
A resolução
dividiu o problema em dois:
- O Novo Banco, com os ativos
considerados saudáveis;
- O chamado “banco mau”, onde
ficaram dívidas e ativos tóxicos.
Esta
engenharia permitiu estabilizar o sistema no imediato. Mas não eliminou o
problema — apenas o isolou.
Mais de uma dezena
de anos depois, o resultado é inequívoco: a massa insolvente do BES acumula um
passivo superior a 11 mil milhões de euros, com ativos residuais
praticamente irrelevantes. O problema não desapareceu. Foi colocado fora do
campo de visão.
O Fundo de
Resolução foi apresentado como a peça-chave para evitar custos públicos. No
entanto, rapidamente se tornou evidente que as contribuições da banca eram
insuficientes.
Resultado: o
Estado emprestou milhares de milhões ao Fundo.
Hoje, o
Fundo de Resolução acumula uma dívida de vários milhares de milhões de euros,
com reembolso previsto até meados do século. Todos os anos, os bancos
contribuem com centenas de milhões para esse esforço — um encargo que,
inevitavelmente, se repercute na economia.
Dizer que
não houve custo para os contribuintes é, no mínimo, uma meia verdade.
Em 2017, o Novo Banco foi vendido ao
fundo «Lone Star Funds», numa
operação que prometia encerrar o dossiê.
Mas o acordo
incluiu um mecanismo de capital contingente que obrigou o Fundo de Resolução a
novas injeções. No total, a operação já mobilizou cerca de 8 mil milhões de
euros.
Ou seja, o problema não foi
resolvido com a venda — foi prolongado.
A pergunta que atravessa todo este
processo é simples: quem suporta, em última instância, este custo?
- Os bancos contribuem — mas ao longo de décadas;
- O Estado financia — através de empréstimos;
- A economia absorve — via custos indiretos.
No fim, a resposta é inevitável:
pagamos todos.
Não de forma imediata, visível ou
politicamente assumida — mas de forma progressiva, diluída e persistente.
O colapso do
Banco Espírito Santo foi apresentado como um problema privado com solução
técnica. Mais de uma dezena de anos depois percebe-se que foi, afinal, um
problema público com custos prolongados.
A engenharia
financeira utilizada permitiu evitar um choque imediato. Mas teve um efeito
colateral evidente: transformou um custo claro num encargo difuso, prolongado
no tempo e difícil de escrutinar.
O chamado
“banco mau” continua a acumular prejuízos. O Fundo de Resolução continua
endividado. E o sistema continua a gerir as consequências de uma decisão que
nunca eliminou o problema — apenas o escondeu.
A conta,
essa, nunca desapareceu.
Apenas
deixou de ser imediatamente visível.
E continua a
ser paga — mesmo por quem foi convencido de que não iria pagar nada.