AS QUESTÕES POLÍTICO-PARTIDÁRIAS E AS QUESTÕES DE REGIME
Neste momento, Portugal vive um
dos piores períodos políticos da sua história democrática. Na verdade, no meio
da encenação política em torno da moção de censura ao Governo, apresentada pela
extrema-direita e à qual ninguém se quer associar, permanecem por resolver
várias questões de regime, como o caso - ou os casos - que envolvem o ministro
da Administração Interna ou, mais grave ainda, o crime cometido no Parlamento,
que, por razões obscuras, continua envolto no "silêncio dos deuses",
apesar da gravidade do sucedido.
E, quando a extrema-direita pede
uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) à atuação do ministro da
Administração Interna, que já está sob investigação criminal, nenhum partido do
arco democrático teve, até hoje, a coragem de propor uma CPI ao crime cometido
no Parlamento. Presumo, aliás, que nunca seria a extrema-direita a pedi-la,
pois, como se dizia na minha terra, "tem culpas no cartório".
Mas as instituições democráticas
são pilares do Estado de direito democrático, e os titulares dos órgãos de
soberania - a começar pelo Presidente da República - devem garantir o seu
regular funcionamento. Ora, tanto o primeiro-ministro como o Presidente da
Assembleia da República estão desacreditados no exercício das respetivas
funções e mantêm-se, ou sobrevivem, por razões político-partidárias, graças
àqueles que entendem que ainda não chegou o momento de agir, mesmo quando o
"tecido" democrático começa a esgaçar-se.
Resta, por isso, o Presidente da
República, em funções há pouco mais de seis meses e já para além do chamado
"estado de graça" dos primeiros cem dias - período inicial de
tolerância e benevolência que a opinião pública, a oposição e os meios de
comunicação social costumam conceder a um governante recém-eleito. Porém, não
se vislumbra que o Presidente queira abandonar este registo de invisibilidade
perante as graves situações que se verificam na governação - na Administração
Interna, na Educação, na Saúde, entre outras áreas - e no Parlamento,
destacando-se, neste último caso, o crime cometido nas suas instalações.
É óbvio que, perante este
imobilismo, a situação política tende a agravar-se. Os sinais são por demais
evidentes. Aproximam-se tempos difíceis, e será à sombra deles que as questões
de regime voltarão a colocar-se.
É evidente que o Presidente António José Seguro não é o Presidente Jorge Sampaio. Mas poderia tê-lo como referência.