A nova lei do arrendamento
A casa para quem pode pagar para entrar
Portugal encontrou uma nova forma de combater a crise da habitação: liberalizar a caução nos contratos de arrendamento.
Parece uma piada. Não é.
Num país onde milhares de famílias já não conseguem encontrar uma casa que possam pagar, o legislador decidiu tornar mais fácil exigir-lhes dinheiro antes sequer de poderem entrar nela.
Não é a redução dos prazos de despejo.
Não são as novas regras de renovação dos contratos.
Não é sequer a possibilidade de antecipação de rendas.
Tudo isso já seria suficientemente discutível.
O mais preocupante é outra coisa: a liberalização da caução.
Portugal passa a estar, tanto quanto resulta da comparação europeia, entre os poucos países onde não existe um teto legal para o valor da caução. Na Áustria existe uma situação semelhante. E há países onde os limites são muito superiores aos praticados na generalidade da Europa — a Polónia, por exemplo, admite uma caução que pode chegar a 12 meses de renda.
Doze meses.
O sonho de qualquer senhorio.
O pesadelo de qualquer candidato a arrendatário.
Na maioria dos países europeus, a caução está sujeita a limites. Em muitos casos, duas rendas. Noutros, três.
Por cá, decidiu-se que o melhor é deixar as partes “livres”.
É a palavra mágica do nosso tempo: liberdade.
Liberdade contratual, dizem-nos.
O Governo explica que a medida pretende aumentar a oferta de habitação, reduzir o risco dos proprietários e devolver confiança ao mercado.
A ideia é simples: se o senhorio estiver mais protegido contra o incumprimento ou contra eventuais danos no imóvel, terá maior confiança para colocar a casa no mercado.
É uma bela teoria.
Só tem um pequeno problema: uma casa não é arrendada apenas pelo senhorio. Também é preciso que alguém consiga pagar para entrar nela.
E a caução não é uma abstrata garantia jurídica.
É dinheiro.
Muito dinheiro, quando se começa a falar de várias rendas.
Imaginemos uma renda de 1.000 euros.
Uma família que consiga suportar essa renda pode ter de desembolsar, no momento da assinatura do contrato, 3.000, 5.000 ou 10.000 euros, dependendo das condições impostas pelo proprietário.
E então surge uma pergunta muito simples:
Quantas famílias portuguesas conseguem pagar 1.000 euros de renda por mês, mas não conseguem reunir vários milhares de euros para conseguir ter uma casa?
Provavelmente muitas.
É aqui que a nova lei revela a sua verdadeira natureza.
Não baixa o preço das casas.
Não aumenta os salários.
Não constrói habitação.
Não aumenta a oferta.
Apenas aumenta o preço de entrada no mercado.
E quem paga esse preço de entrada?
Precisamente quem tem menos dinheiro.
A consequência pode ser tão simples quanto perversa: duas famílias podem ter exatamente a mesma capacidade para pagar a renda mensal, mas apenas uma consegue arrendar a casa porque dispõe de dinheiro suficiente para pagar a caução.
A habitação deixa, assim, de ser apenas uma questão de capacidade para pagar a renda.
Passa a ser também uma questão de capacidade financeira para conseguir chegar à renda.
E isto acontece num país onde já se tornou normal pedir fiadores, várias rendas, cauções e outras garantias a quem procura uma casa.
É difícil chamar a isto uma política de acesso à habitação.
É, isso sim, uma política de seleção económica dos inquilinos.
Mas há ainda outro argumento que merece ser desmontado.
Diz o Governo que a liberdade para exigir uma caução mais elevada vai aumentar a confiança dos proprietários e, por essa via, aumentar a oferta.
Será mesmo?
Um proprietário decide colocar ou não uma casa no mercado por causa da caução?
Ou decide sobretudo em função da rentabilidade do investimento, da fiscalidade, da segurança jurídica, do risco de incumprimento, da duração do contrato e da facilidade de recuperar o imóvel quando alguma coisa corre mal?
A caução pode proteger o proprietário.
Mas dificilmente cria casas que não existem.
Uma caução de dez rendas não constrói uma única casa.
E é precisamente aqui que a política de habitação parece ter perdido o sentido.
Em vez de atacar a escassez de oferta, ataca-se o problema pelo lado mais fácil: aumentam-se as garantias exigidas a quem procura uma casa.
É uma solução extraordinariamente cómoda.
Não custa dinheiro ao Estado.
Não exige construir habitação pública.
Não exige baixar impostos.
Não exige aumentar salários.
Não exige reformar profundamente o mercado.
Basta dizer ao senhorio: peça mais.
E ao inquilino: pague, se puder.
Tudo isto em nome da liberdade contratual.
Mas que liberdade existe quando uma pessoa precisa desesperadamente de uma casa e do outro lado está alguém que pode escolher entre vários candidatos?
Juridicamente, ambos são livres.
Economicamente, não.
A liberdade contratual não transforma duas partes desiguais em partes iguais.
E quando existe escassez de habitação, a posição de quem tem a casa é naturalmente mais forte do que a de quem precisa dela.
Por isso, a liberalização da caução não é uma simples alteração técnica ao regime do arrendamento.
É uma opção política.
E uma opção política que corre o risco de tornar o mercado ainda mais desigual.
Quem tem dinheiro terá mais facilidade em arrendar.
Quem não tem dinheiro terá mais dificuldade em entrar.
E depois admiram-se de os jovens continuarem em casa dos pais.
Admira-se que famílias adiem projetos de vida.
Admira-se que a natalidade não aumente.
Admira-se que uma geração inteira tenha dificuldade em constituir uma vida autónoma.
A habitação não é um produto de luxo.
É o lugar onde as pessoas vivem.
E quando o Estado decide que, para entrar numa casa, o cidadão pode ter de entregar ao proprietário vários meses de renda antecipadamente, mais uma caução cujo valor deixou de ter limite, está a fazer uma escolha muito clara:
está a proteger mais quem já tem uma casa do que quem precisa de uma.
Pode chamar-lhe liberdade contratual.
Pode chamar-lhe confiança no mercado.
Pode chamar-lhe dinamização do arrendamento.
Mas não lhe chamem política de acesso à habitação.
Porque, para quem precisa de uma casa e não tem dinheiro para pagar a entrada, a liberdade de contratar pode resumir-se a uma coisa muito simples:
ficar à porta.
E talvez seja essa a maior ironia desta nova lei.
Num país confrontado com uma grave crise de habitação, o legislador encontrou uma solução para facilitar o acesso às casas:
permitir que seja exigido mais dinheiro a quem procura uma.