A Redução Biológica da Mulher e o Resgate da Dignidade Humana
Em plena campanha eleitoral no Brasil o candidato Flávio Bolsonaro declarou o seguinte: "As Mulheres são fundamentais para a perpetuação da espécie". Este tipo de pensamento não é novo no debate político e social contemporâneo, ressurgindo com frequência nos discursos que, sob o manto da exaltação da família ou da preocupação com as crises demográficas, afirmam que as mulheres são fundamentais para a perpetuação da espécie. Embora a frase seja uma evidência biológica incontestável, a sua transposição para a arena política e ética esconde uma armadilha perigosa: a tendência de reduzir o valor social, político e existencial da mulher à sua capacidade de gestação. Esta visão utilitarista não só empobrece o debate público, como colide frontalmente com o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana.
A fundação do conceito moderno de dignidade
humana, amplamente consolidada pelo filósofo Immanuel Kant, assenta na premissa
de que o ser humano deve ser tratado sempre como um fim em si mesmo, e
nunca como um meio para obter um fim. Quando a retórica política elege a função
reprodutiva como o atributo "fundamental" da mulher, opera-se uma
inversão ética severa. O corpo feminino deixa de ser a expressão de um
indivíduo livre e passa a ser encarado como um instrumento coletivo de
incubação.
Esta instrumentalização biológica cria uma
hierarquia invisível de cidadania. Se o valor da mulher está indexado à
maternidade, o que dizer das mulheres que não podem, não querem ou decidiram
adiar a gestação? Sob esta ótica reducionista, a mulher não reprodutora — seja
por razões médicas, de orientação sexual ou por livre-arbítrio — é empurrada
para uma marginalização invisível. O seu intelecto, as suas conquistas
profissionais, o seu contributo económico e a sua cidadania passam a ser vistos
como secundários perante a "falha" em cumprir o desígnio biológico da
espécie.
A hipocrisia desta redução biológica torna-se
evidente quando analisamos o reverso da moeda: a fertilidade masculina.
Raramente — ou nunca — se ouve num comício político que o valor fundamental do
homem reside na qualidade do seu esperma ou na sua capacidade de fertilização.
Quando um homem enfrenta a infertilidade ou opta
por uma vasectomia, a sociedade tradicionalista não o despoja do seu estatuto.
O homem continua a ser validado pelo seu papel na esfera pública: o seu
trabalho, o seu poder económico, o seu intelecto ou a sua liderança. O seu
"legado" é transferido para o campo das ideias, do património ou do
apelido. À mulher, contudo, nega-se frequentemente essa mesma transcendência;
exige-se-lhe o tributo do sangue e do parto para que a sua utilidade social seja
plenamente homologada pelo conservadorismo.
O combate a esta visão não implica a
desvalorização da maternidade. Pelo contrário: proteger a maternidade pressupõe
reconhecê-la como um ato de escolha e de amor, e não como uma obrigação
social ou um destino biológico inevitável. Uma sociedade que respeita a
dignidade humana apoia as mães com licenças justas, saúde pública de qualidade
e igualdade salarial, mas faz o mesmo pelas mulheres que trilham caminhos estritamente
profissionais ou pessoais.
O útero não é um destino, e a biologia não pode
ditar o teto dos direitos civis. Reduzir as mulheres à função de perpetuadoras
da espécie é um retrocesso civilizacional que ignora séculos de lutas por
emancipação. A dignidade da mulher é intrínseca, absoluta e incondicional. Ela
existe pela simples condição de ser humana, livre para escrever a sua própria
história — com ou sem berços pelo caminho.