CONVERSAS DE CORREDOR… DE AVIÃO!
Quando o presidente Trump fala, com aparente naturalidade, sobre a possibilidade de receber o líder da Coreia do Norte na Casa Branca, elogiando a sua “força” e a atenção silenciosa do seu povo, não está apenas a comentar geopolítica. “Ele fala e o seu povo fica atento”, diz. E acrescenta: “Eu quero que o meu povo faça o mesmo”. A frase é curta, mas politicamente carregada. Não é sobre o outro; é sobre o que se deseja em casa: menos contestação, mais obediência.
Esse desejo reaparece em relatos de conversas privadas com responsáveis militares. Em pelo menos uma dessas ocasiões, o presidente lamentou que os seus generais não fossem tão subservientes como os de Hitler. A comparação é historicamente perturbadora, mas o essencial está no que ela revela: a frustração perante instituições que não obedecem sem questionar.
Num sistema democrático, os militares não servem um líder, mas a Constituição. A sua independência é uma garantia contra o abuso de poder. No entanto, nesta visão, essa autonomia surge como um incómodo. Sempre que generais levantam questões legais ou constitucionais, deixam de ser vistos como guardiões da ordem democrática e passam a ser obstáculos à vontade presidencial.
É neste contexto que se compreende a admiração recorrente de Trump pelo modelo russo e chinês. Não se trata de elogiar os seus sistemas políticos como um todo, mas de valorizar a disciplina, a hierarquia clara e a ausência pública de dissenso. Os desfiles militares, descritos como “belas cerimónias”, são exaltados não apenas como espetáculo, mas como símbolo de um ideal de poder: força visível, obediência organizada, lealdade sem ruído.
O desejo de promover demonstrações semelhantes em Washington não é apenas estético. É profundamente político. Trata-se de transformar a força militar num instrumento de encenação do poder, onde a disciplina substitui o debate e a ordem se sobrepõe ao pluralismo.
A ideia de que líderes da China e da Rússia “respeitam” os Estados Unidos porque o presidente “reconstruiu” o exército e tomou decisões militares duras reforça esta lógica. O respeito, aqui, nasce do medo; e o medo nasce da concentração de poder. É uma leitura simplificada das relações internacionais, que ignora alianças, normas e equilíbrios institucionais em favor da figura do líder forte.
Não surpreende, por isso, o desejo de Trump de “entender-se” com dirigentes autoritários. Não é apenas pragmatismo diplomático. É afinidade. A valorização da lealdade pessoal, acima da legalidade e da autonomia institucional, aproxima este modelo de governação de um regime personalista, afastando-o da tradição republicana americana.
Estas conversas de corredor — ditas longe dos microfones, mas nunca longe das consequências políticas — revelam uma impaciência crescente com a democracia. A democracia é lenta, imperfeita, ruidosa. Vive de freios, contrapesos e conflitos. O autoritarismo, pelo contrário, promete eficiência, silêncio e disciplina.
O problema não é admirar a força.
O problema é querer substituí-la
pela obediência.
Quando Trump começa a sonhar com povos mais atentos, generais mais dóceis e desfiles mais bonitos, já não está apenas a governar. Está a ensaiar uma ideia de poder que a democracia, por definição, deveria recusar.