FESTAS DE VERÃO
Não ser novo tem uma vantagem. Isto é a gente a
falar.
Assistimos, ao longo da vida, a muitas festas.
Particularmente no verão, estação que naturalmente empurra as pessoas para a
rua, para o bailarico, para as comezainas e para as eternas cantigas — ou
prosas — de escárnio e maldizer, tradição tão antiga quanto a nossa capacidade
coletiva de rir do absurdo.
Mas este ano as festas parecem particularmente
animadas. E o mérito não pertence às comissões organizadoras nem às bandas
filarmónicas. Pertence, sobretudo, aos políticos e à governação que, como quase
sempre sucede, insistem em assumir o papel de verdadeiro bombo da festa.
A atual governação, apoiada por uma maioria que
por vezes parece suportá-la apenas por inércia, decidiu este ano oferecer um
espetáculo próprio e fazer concorrência desleal às festividades populares.
Começou por aldrabar o programa, introduzindo números inesperados que não
constavam do cartaz e que, invariavelmente, revelam mais cinismo do que humor.
Seguiram-se brincadeiras de gosto duvidoso, transformando os mais vulneráveis —
pobres, doentes ou cidadãos dependentes da proteção social — em matéria-prima de
cálculo político cada vez mais desprovido de pudor.
Pelo meio, não faltou o velho número de
entretenimento com a imigração: ensaiam-se deportações em massa, encenam-se
discursos securitários e alimenta-se, com particular zelo, uma turba sempre
disponível para encontrar no estrangeiro o culpado conveniente para todas as
inquietações nacionais. Uma multidão servida, ironicamente, pela economia de
plataforma — talvez entregue pela Uber Eats — que, apesar de tudo, continua a
precisar de quem trabalha para poder sustentar a sua indignação.
Ao contrário da criação genuína e popular das
matrafonas e dos cabeçudos, figuras maiores do nosso imaginário festivo, a
atual governação e alguns dos seus protagonistas dispensam qualquer esforço de
caracterização: apresentam-se ao natural e, ainda assim, conseguem superar em
grotesco aquilo que pretendem representar.
Mas o ponto mais inquietante desta festa política
de verão de 2026 encontra-se na criação da chamada Prestação Social Única
(PSU), concebida depois da incapacidade de concretizar uma revisão mais
profunda da legislação laboral. Esta nova prestação surge não como instrumento
de proteção social, mas como caricatura regressiva do Estado Social: um
mecanismo de vigilância, disciplinamento e suspeição permanente lançado
precisamente sobre aqueles que mais necessitam de proteção.
As novidades apresentadas não deixam margem para
equívocos: trabalho obrigatório para beneficiários e criação de canais de
denúncia destinados a identificar abusadores do sistema.
Assistimos, assim, ao início de um perigoso
processo de estigmatização da pobreza, em que os pobres deixam de ser cidadãos
em situação de fragilidade para passarem a ser apresentados como um inimigo
interno, um corpo estranho sobre o qual importa exercer vigilância, suspeita e
controlo.
Não faltará muito para que, em futuras festas
partidárias, os discursos inflamados dos habituais arguidos de estimação do
Ministério Público recuperem velhos chavões sobre beneficiários sociais que
“passam o dia no café” ou sobre famílias que, miraculosamente, possuem
automóveis de gama alta. O objetivo será o mesmo de sempre: transformar
exceções em regra e consolidar a narrativa segundo a qual os pobres são
responsáveis pela degradação coletiva.
A este discurso juntar-se-á, inevitavelmente, o
ataque aos imigrantes, convertidos nos novos párias sociais e convocados para o
papel histórico de bode expiatório, sempre útil quando faltam respostas sérias
para problemas reais.
Convém recordar que o terreno da pobreza e da
imigração sempre foi fértil no nosso país para experiências de controlo social.
O assistencialismo católico durante o regime do Estado Novo, os antigos
albergues de mendicidade ou a Colónia do Pisão, anexa ao Albergue da
Mendicidade da Mitra, onde centenas de indigentes chegaram a viver em regimes
de isolamento e trabalho forçado, lembram-nos que a gestão da pobreza em
Portugal sempre oscilou perigosamente entre a caridade paternalista e a
repressão institucional.
Talvez os antigos albergues, colónias
disciplinares e instituições de internamento já não se ajustem à estética
contemporânea.
Vivemos agora a era dos unicórnios, das start-ups
e da inovação financiada por fundos públicos. Os velhos mecanismos de exclusão
social talvez regressem apenas com outra embalagem: mais tecnológica, mais
elegante e certamente apresentada como modernização inevitável.
A pobreza já não precisa de ser enclausurada.
Basta transformá-la em mercado.
Porque, na nova economia moral do poder, o pobre
só deixa de ser um problema quando começa finalmente a dar lucro.