“CRIME” NO PARLAMENTO – A HORA DO CIDADÃO
Todos sabemos que a Polícia Judiciária se deslocou à Assembleia da República para realizar perícias e que o Ministério Público instaurou um inquérito criminal destinado a investigar a intrusão — ou, se quisermos, o assalto e eventual vandalismo — ocorrido no gabinete do líder do Chega na Assembleia da República.
Do ponto de vista jurídico-penal, portanto, o assunto está entregue às autoridades competentes, seguindo os procedimentos próprios, no tempo e nos termos que a investigação determinar.
Mas, perante a gravidade do sucedido, seria de esperar que o próprio Parlamento demonstrasse igual interesse em apurar as circunstâncias políticas e institucionais que rodearam o episódio. Poderia, designadamente, equacionar-se a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para averiguar as responsabilidades políticas e as condições de segurança que permitiram que tal situação ocorresse.
Nada disso parece estar em cima da mesa.
Será para não “interferir” na investigação criminal em curso? Talvez. Mas uma investigação parlamentar não teria necessariamente o mesmo objeto nem substituiria, de forma alguma, a investigação do Ministério Público. Poderia, antes, procurar esclarecer responsabilidades políticas, procedimentos internos e eventuais falhas de segurança da própria Assembleia da República.
Curiosa — e preocupante — é também a posição da comunicação social perante este “crime”. O silêncio tem sido, no mínimo, surpreendente.
Afinal, parece existir um silêncio geral das instituições que perturba e envenena o ar que respiramos.
Diariamente se fala do Ministro da Administração Interna, das suas decisões e dos episódios que o envolvem. Mas, perante um facto ocorrido dentro da própria Assembleia da República, envolvendo a intrusão num gabinete parlamentar, parece não haver a mesma curiosidade, a mesma indignação ou a mesma exigência de esclarecimento.
Devemos embarcar neste silêncio?
Acho que não.
Depois de 15 de setembro, com o regresso de férias e a retoma dos trabalhos parlamentares, se, entretanto, não forem conhecidos resultados ou desenvolvimentos relevantes das investigações em curso, seria desejável que os cidadãos assumissem a sua responsabilidade cívica e política.
Uma das possibilidades seria a apresentação de uma petição à Assembleia da República, ao abrigo do direito de petição consagrado no artigo 52.º da Constituição da República Portuguesa, solicitando o esclarecimento público das circunstâncias em que ocorreu a intrusão e, designadamente, a avaliação da necessidade de um apuramento parlamentar das responsabilidades políticas e institucionais.
Seria desejável que essa petição reunisse um número expressivo de subscritores, de forma a assegurar a sua apreciação e debate parlamentar nos termos constitucional e regimentalmente previstos.
Porque não podemos aceitar que este assunto simplesmente desapareça da agenda pública.
Não se trata de substituir a Justiça. Não se trata de interferir numa investigação criminal.
Trata-se de exigir que o Parlamento, enquanto instituição central da nossa democracia, também queira saber o que aconteceu dentro das suas próprias instalações e por que razão aconteceu.
Trata-se, afinal, de uma questão de transparência, de responsabilidade institucional e de respeito pelos cidadãos.
Não podemos deixar que o assunto “morra”, como parece estar a acontecer.
Talvez tenha chegado a hora do cidadão.