Crónica da Ilha Áurea
Chamaram-lhe
Ilha Áurea, embora não houvesse nela ouro visível. O brilho vinha de
outra matéria: promessas, ações inflacionadas, derivados exóticos, contratos
futuros sobre colheitas que ainda nem sabiam se nasceriam. Era uma ilha erguida
no meio do deserto, onde a areia, obediente, fazia de mar.
Para lá
foram enviados os grandes arquitetos do mundo financeiro — não por castigo,
diziam, mas por coerência. Se acreditavam que tudo se cria do nada, que o valor
é uma questão de narrativa e que o mercado é divino e autorregulado, então que
o provassem longe do incómodo ruído humano.
À frente
deles seguia o arquétipo perfeito do seu tempo: o Magnata, também
conhecido como Senhor do Casino. Tinha o cabelo penteado como um gráfico
ascendente e a fala ritmada como um pregão bolsista. Jurava que o risco era uma
virtude moral e que a falência, quando alheia, era apenas uma oportunidade.
Na Ilha
Áurea, tudo deveria funcionar como sempre — mas sem “sempre” nenhum para trás.
Nada de trabalhadores invisíveis, nada de cadeias logísticas globais, nada de
impostos que os perseguissem como mosquitos fiscais. Apenas eles, os seus
herdeiros e a convicção inabalável de que o mercado resolve.
No primeiro
dia fundaram três bolsas de valores. No segundo, abriram cinco bancos. No
terceiro, criaram uma agência de notação que classificou a ilha como AAA+,
apesar de ainda não existir pão.
O pão revelou-se um detalhe técnico.
O Magnata
convocou uma assembleia geral extraordinária. Propôs a criação de futuros sobre
trigo. Não havendo trigo, negociaram a expectativa do trigo. A expectativa
valorizou 12% ao final da tarde. Celebraram com champanhe imaginário, servido
em copos muito reais.
Mas a areia não se transaciona
facilmente.
Quando a
fome começou a roçar-lhes os gráficos, descobriram uma curiosa irregularidade
no sistema: alguém teria de cultivar. Alguém teria de limpar. Alguém teria de
ensinar as crianças nascidas das alianças estratégicas familiares. Olharam uns
para os outros como quem observa um balanço negativo.
— Externalizamos? — sugeriu um.
— Automatizamos — respondeu outro.
— Incentivamos com stock options — concluiu o Magnata.
Construíram
máquinas — magníficas, reluzentes, incapazes de plantar sem mãos humanas que as
programassem. Criaram departamentos, comités, task forces para a Agricultura
Disruptiva. Emitiram relatórios sobre o Potencial Sustentável da Areia.
A areia manteve-se areia.
Com o tempo,
a ilha tornou-se um espelho. Descobriram que a autossuficiência exige trabalho,
que o valor precisa de corpo, que o mercado — fechado num casulo dourado — gira
sobre si mesmo até ficar tonto.
As crianças
cresceram a brincar às fusões e aquisições, trocando cromos de empresas
imaginárias. Quando perguntavam de onde vinha a comida, respondiam: “do
crescimento”.
E cresceram, sim — mas não como
esperavam.
Na Ilha
Áurea não havia exterior para culpar, nem trabalhadores para invisibilizar, nem
fronteiras fiscais para contornar. O único paraíso disponível era o da
responsabilidade partilhada — esse território estranho onde riqueza não é
apenas número, mas relação.
O Magnata,
certa tarde, subiu à duna mais alta e anunciou um plano de estímulo histórico.
Prometeu prosperidade infinita. A plateia aplaudiu com entusiasmo protocolar.
O vento respondeu primeiro.
E, pela primeira vez, ninguém
conseguiu cotá-lo.