A REGIONALIZAÇÃO: O ‘PECADO MORTAL’ DO CENTRALISMO
Em 1998, Portugal foi chamado a
decidir, em referendo, se queria dar cumprimento efetivo ao desígnio
constitucional da criação de regiões administrativas. A proposta foi chumbada.
A abstenção superou os 50%, tornando o resultado juridicamente não vinculativo;
ainda assim, politicamente devastador para o governo de António Guterres, que
assumiu a derrota e interrompeu o processo.
A campanha contra a
regionalização foi particularmente intensa no seio do Partido Social Democrata,
então liderado por Marcelo Rebelo de Sousa, que se tornou um dos rostos mais
visíveis do “não”. Os argumentos repetiam-se: criação de “tachos”, aumento da
despesa pública, mais burocracia, risco de desigualdades regionais. No entanto,
dentro do próprio partido existiam vozes de peso, como Valente de Oliveira, que
defendiam convictamente a regionalização como instrumento de modernização do
Estado.
Passadas quase três décadas,
importa perguntar: quem tinha razão?
O paradoxo do centralismo
O que se seguiu ao chumbo não foi
a contenção do aparelho do Estado, mas antes a sua proliferação desconcentrada.
Criaram-se comissões de coordenação, áreas metropolitanas reforçadas,
institutos regionais e múltiplos serviços periféricos da administração central.
Estruturas dependentes de Lisboa, com autonomia limitada, mas custos bem reais.
O centralismo não diminuiu a
despesa; apenas a reorganizou sob outra forma, mantendo a decisão longe dos
territórios e das populações. O resultado é um país onde o interior continua a
perder população, investimento e influência política, enquanto o litoral
concentra poder, riqueza e oportunidades.
A regionalização não significaria
multiplicar cargos; significaria responsabilizar politicamente quem decide,
aproximando o centro de decisão dos problemas concretos.
A prova das crises
Sempre que o país enfrenta uma
catástrofe — incêndios, cheias, tempestades — repetem-se as mesmas críticas:
descoordenação, respostas tardias, comunicação deficiente, ausência de comando
claro.
Após fenómenos extremos recentes,
milhares de habitações ficaram dias ou semanas sem serviços essenciais,
populações isoladas aguardaram apoios prometidos e a articulação entre
autoridades revelou fragilidades gritantes. Recordemos os incêndios de 2017, as
cheias de 2021, ou a recente tempestade que deixou dezenas de milhares de casas
sem eletricidade. O padrão repete-se: decisões centralizadas, execução
fragmentada, responsabilidade diluída.
Neste cenário, destacam-se
frequentemente autarcas que, conhecendo o território, avançam com meios
próprios e soluções imediatas. Mas os municípios não podem substituir-se ao que
deveria ser uma estrutura regional robusta, dotada de competências claras em
proteção civil, ordenamento do território e coordenação de serviços.
A Constituição por cumprir
A Constituição da República
Portuguesa prevê a criação de regiões administrativas. Não se trata de uma
inovação exótica, mas de um modelo amplamente adotado na União Europeia, onde a
governação multinível é instrumento de coesão territorial.
A regionalização permitiria:
(I)
Melhor planeamento estratégico adaptado às
especificidades regionais;
(II)
Maior eficácia na gestão de fundos europeus;
(III)
Reforço da coesão territorial;
(IV)
Combate à desertificação do interior;
(V)
Maior responsabilização política dos decisores.
Ao contrário do argumento do
“aumento de desigualdades”, a regionalização tende a reduzir assimetrias, ao
permitir políticas diferenciadas para realidades distintas.
O verdadeiro “pecado mortal” não
é a regionalização; é o centralismo persistente. Um centralismo que concentra
decisões, mas dispersa responsabilidades. Que promete proximidade, mas pratica
distância. Que invoca eficiência, mas produz atraso.
O referendo de 1998 encerrou um
capítulo, mas não resolveu o problema estrutural. O país continua
territorialmente desequilibrado, politicamente excessivamente centralizado e
administrativamente redundante.
Talvez esteja na hora de
revisitar o debate, não com os fantasmas dos “tachos”, mas com a maturidade de
quem já viu, repetidas vezes, as limitações de um modelo excessivamente
central.
Cumprir a Constituição não é um
capricho político; é uma exigência democrática. E a regionalização, longe de
ser um risco, pode ser precisamente o instrumento que falta para aproximar o
Estado das pessoas — e as decisões da realidade.
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