sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

 CONVERSAS DE CORREDOR… DE AVIÃO!

 Há frases que não nascem para discursos oficiais. Não são pensadas para conferências de imprensa nem para comunicados diplomáticos. Surgem em conversas informais, em corredores, a bordo de aviões presidenciais. É nesses momentos, quando o poder baixa a guarda, que se revela com maior nitidez.

Quando o presidente Trump fala, com aparente naturalidade, sobre a possibilidade de receber o líder da Coreia do Norte na Casa Branca, elogiando a sua “força” e a atenção silenciosa do seu povo, não está apenas a comentar geopolítica. “Ele fala e o seu povo fica atento”, diz. E acrescenta: “Eu quero que o meu povo faça o mesmo”. A frase é curta, mas politicamente carregada. Não é sobre o outro; é sobre o que se deseja em casa: menos contestação, mais obediência.

Esse desejo reaparece em relatos de conversas privadas com responsáveis militares. Em pelo menos uma dessas ocasiões, o presidente lamentou que os seus generais não fossem tão subservientes como os de Hitler. A comparação é historicamente perturbadora, mas o essencial está no que ela revela: a frustração perante instituições que não obedecem sem questionar.

Num sistema democrático, os militares não servem um líder, mas a Constituição. A sua independência é uma garantia contra o abuso de poder. No entanto, nesta visão, essa autonomia surge como um incómodo. Sempre que generais levantam questões legais ou constitucionais, deixam de ser vistos como guardiões da ordem democrática e passam a ser obstáculos à vontade presidencial.

É neste contexto que se compreende a admiração recorrente de Trump pelo modelo russo e chinês. Não se trata de elogiar os seus sistemas políticos como um todo, mas de valorizar a disciplina, a hierarquia clara e a ausência pública de dissenso. Os desfiles militares, descritos como “belas cerimónias”, são exaltados não apenas como espetáculo, mas como símbolo de um ideal de poder: força visível, obediência organizada, lealdade sem ruído.

O desejo de promover demonstrações semelhantes em Washington não é apenas estético. É profundamente político. Trata-se de transformar a força militar num instrumento de encenação do poder, onde a disciplina substitui o debate e a ordem se sobrepõe ao pluralismo.

A ideia de que líderes da China e da Rússia “respeitam” os Estados Unidos porque o presidente “reconstruiu” o exército e tomou decisões militares duras reforça esta lógica. O respeito, aqui, nasce do medo; e o medo nasce da concentração de poder. É uma leitura simplificada das relações internacionais, que ignora alianças, normas e equilíbrios institucionais em favor da figura do líder forte.

Não surpreende, por isso, o desejo de Trump de “entender-se” com dirigentes autoritários. Não é apenas pragmatismo diplomático. É afinidade. A valorização da lealdade pessoal, acima da legalidade e da autonomia institucional, aproxima este modelo de governação de um regime personalista, afastando-o da tradição republicana americana.

Estas conversas de corredor — ditas longe dos microfones, mas nunca longe das consequências políticas — revelam uma impaciência crescente com a democracia. A democracia é lenta, imperfeita, ruidosa. Vive de freios, contrapesos e conflitos. O autoritarismo, pelo contrário, promete eficiência, silêncio e disciplina.

O problema não é admirar a força.

O problema é querer substituí-la pela obediência.

Quando Trump começa a sonhar com povos mais atentos, generais mais dóceis e desfiles mais bonitos, já não está apenas a governar. Está a ensaiar uma ideia de poder que a democracia, por definição, deveria recusar.

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