segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

 Crónica da Ilha Áurea

Chamaram-lhe Ilha Áurea, embora não houvesse nela ouro visível. O brilho vinha de outra matéria: promessas, ações inflacionadas, derivados exóticos, contratos futuros sobre colheitas que ainda nem sabiam se nasceriam. Era uma ilha erguida no meio do deserto, onde a areia, obediente, fazia de mar.

Para lá foram enviados os grandes arquitetos do mundo financeiro — não por castigo, diziam, mas por coerência. Se acreditavam que tudo se cria do nada, que o valor é uma questão de narrativa e que o mercado é divino e autorregulado, então que o provassem longe do incómodo ruído humano.

À frente deles seguia o arquétipo perfeito do seu tempo: o Magnata, também conhecido como Senhor do Casino. Tinha o cabelo penteado como um gráfico ascendente e a fala ritmada como um pregão bolsista. Jurava que o risco era uma virtude moral e que a falência, quando alheia, era apenas uma oportunidade.

Na Ilha Áurea, tudo deveria funcionar como sempre — mas sem “sempre” nenhum para trás. Nada de trabalhadores invisíveis, nada de cadeias logísticas globais, nada de impostos que os perseguissem como mosquitos fiscais. Apenas eles, os seus herdeiros e a convicção inabalável de que o mercado resolve.

No primeiro dia fundaram três bolsas de valores. No segundo, abriram cinco bancos. No terceiro, criaram uma agência de notação que classificou a ilha como AAA+, apesar de ainda não existir pão.

O pão revelou-se um detalhe técnico.

O Magnata convocou uma assembleia geral extraordinária. Propôs a criação de futuros sobre trigo. Não havendo trigo, negociaram a expectativa do trigo. A expectativa valorizou 12% ao final da tarde. Celebraram com champanhe imaginário, servido em copos muito reais.

Mas a areia não se transaciona facilmente.

Quando a fome começou a roçar-lhes os gráficos, descobriram uma curiosa irregularidade no sistema: alguém teria de cultivar. Alguém teria de limpar. Alguém teria de ensinar as crianças nascidas das alianças estratégicas familiares. Olharam uns para os outros como quem observa um balanço negativo.

— Externalizamos? — sugeriu um.
— Automatizamos — respondeu outro.
— Incentivamos com stock options — concluiu o Magnata.

Construíram máquinas — magníficas, reluzentes, incapazes de plantar sem mãos humanas que as programassem. Criaram departamentos, comités, task forces para a Agricultura Disruptiva. Emitiram relatórios sobre o Potencial Sustentável da Areia.

A areia manteve-se areia.

Com o tempo, a ilha tornou-se um espelho. Descobriram que a autossuficiência exige trabalho, que o valor precisa de corpo, que o mercado — fechado num casulo dourado — gira sobre si mesmo até ficar tonto.

As crianças cresceram a brincar às fusões e aquisições, trocando cromos de empresas imaginárias. Quando perguntavam de onde vinha a comida, respondiam: “do crescimento”.

E cresceram, sim — mas não como esperavam.

Na Ilha Áurea não havia exterior para culpar, nem trabalhadores para invisibilizar, nem fronteiras fiscais para contornar. O único paraíso disponível era o da responsabilidade partilhada — esse território estranho onde riqueza não é apenas número, mas relação.

O Magnata, certa tarde, subiu à duna mais alta e anunciou um plano de estímulo histórico. Prometeu prosperidade infinita. A plateia aplaudiu com entusiasmo protocolar.

O vento respondeu primeiro.

E, pela primeira vez, ninguém conseguiu cotá-lo.

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