sexta-feira, 2 de outubro de 2026

PORTUGAL E OS SEUS MELHORES

Muitos países usam os seus recursos para desenvolver as suas economias e melhorar as condições de vida das suas populações. Essas riquezas, de natureza muito diversa, são fontes de rendimento e de prosperidade.

E não são apenas os recursos naturais que produzem riqueza. Aliás, há países com recursos naturais suficientes para terem construído sociedades de bem-estar e que não o conseguiram fazer até hoje. Pelo contrário, há países praticamente sem recursos naturais que souberam criar outros recursos e, através deles, gerar riqueza suficiente para proporcionar aos seus cidadãos um elevado nível de vida. A Suíça é um caso paradigmático.

Portugal não é particularmente rico em recursos naturais. Ou melhor: tem alguns, mas não em quantidade suficiente para, por si só, gerarem riqueza para todos. Temos a cortiça, o azeite, o vinho do Porto e pouco mais, em níveis de produção que não nos permitem competir em quantidade num mercado global.

Mas temos outros recursos. E alguns deles são extraordinários.

O problema é que, com demasiada frequência, não sabemos aproveitá-los. Pior: às vezes parece que fazemos questão de os diminuir.

É então que assistimos a situações caricatas de confronto entre aquilo que devíamos preservar e valorizar e uma cambada de idiotas que nada simbolizam a não ser um velho problema português: a mesquinhez, a ignorância e o palavreado — vulgo, o «papalvo».

E o «papalvo» anda por aí, novamente, a fazer estragos.

Alguém dizia que Portugal nunca soube tirar verdadeiro partido dos seus melhores nem das potencialidades que eles geram. Pessoas que são autênticas bandeiras do país, reconhecidas entre os seus pares, admiradas e até veneradas por milhões, acabam frequentemente por não encontrar em Portugal um reconhecimento à dimensão do seu estatuto.

Levam Portugal ao mundo, mas, cá dentro, tornam-se alvos preferenciais da velha mesquinhez lusitana.

Cristiano Ronaldo é, provavelmente, um dos maiores ativos internacionais que Portugal alguma vez teve.

 Não é preciso gostar dele. Não é preciso gostar da sua personalidade, de todas as suas atitudes ou de tudo aquilo que diz. Também não é preciso transformá-lo numa figura acima da crítica.

Basta perceber aquilo que representa.

Durante mais de duas décadas, Cristiano Ronaldo levou o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo. Fê-lo através do futebol, naturalmente, mas ultrapassou há muito as fronteiras do próprio futebol. Tornou-se uma figura global e, com ela, tornou global uma associação permanente ao país onde nasceu.

Quantos países não gostariam de ter um ativo desta dimensão?

Nós temos.

E que fazemos com ele?

Discutimos se é demasiado vaidoso. Se fala demais. Se devia jogar menos. Se devia saber sair. Se devia ser mais isto ou menos aquilo. E, de tempos a tempos, aparece alguém a exigir-lhe um «exercício de humildade».

Talvez.

Cristiano Ronaldo tem defeitos, como qualquer outra pessoa. Pode errar, pode dizer o que não devia, pode ter comportamentos criticáveis e pode, naturalmente, ser criticado.

Mas há qualquer coisa de profundamente contraditório em exigir permanentemente humildade a alguém a quem, durante mais de vinte anos, exigimos que fosse excecional.

Queremos que seja o melhor do mundo, mas incomoda-nos que tenha consciência de que foi um dos melhores do mundo.

Queremos que carregue a bandeira portuguesa, que marque os golos, que bata os recordes, que leve Portugal às primeiras páginas dos jornais de todo o mundo.

Depois, quando revela as fragilidades próprias de quem passou uma vida inteira obrigado a ser o melhor, cai-lhe em cima o tribunal da pequena moralidade nacional.

Pedem-lhe um «exercício de humildade», mas recusam-lhe as suas fraquezas.

Talvez o problema não seja Cristiano Ronaldo.

Talvez seja esta nossa velha dificuldade em lidar com os nossos melhores.