quarta-feira, 30 de setembro de 2026

 “O Regresso dos Intelectuais com Bons Modos”

Na coluna “Gente”, do Jornal Expresso da semana passada, saudava-se o regresso dos “intelectuais com bons modos” à vida pública portuguesa, a propósito do debate sobre inflação entre Vítor Bento e Luís Aguiar-Conraria.

Segundo a referida coluna, o debate “mostrou que é possível ter cérebro e boas-maneiras, garantindo ao mesmo tempo que os comensais mantinham os copos de vinho cheios”. E terminava o colunista: “Infelizmente ainda estão em minoria.”

Eu não assisti ao debate, mas não duvido da informação.

Pelo que é possível perceber, o colunista saudava os “bons modos” com que o debate decorreu entre os dois economistas, numa crítica, mais ou menos velada, aos debates que acontecem quase diariamente nas televisões, rádios e outros meios de comunicação, protagonizados, tantas vezes, por intervenientes sem maneiras, incultos ou simplesmente ignorantes.

Confesso que os “bons modos” são sempre agradáveis de ver e ouvir. Mas não escondem, necessariamente, a desilusão perante um conteúdo que, embora por vezes bem estruturado, pode ser incipiente, previsível e estandardizado.

Pior ainda quando os temas, por si só, não cativam.

Falar de inflação — como parece ter sido o caso —, por muito importante que seja, é uma verdadeira “estopada”. Pelo menos para mim. E, pelo visto, talvez também para o colunista pois, segundo ele, o grande mérito do debate, terá sido ter demonstrado que é possível “ter cérebro e boas-maneiras”, mesmo discutindo ‘inflação’.

Agora digam-me lá o seguinte: como se pode ter “boas maneiras” quando se está perante o aumento geral e contínuo dos preços dos bens e serviços?

Como se pode ter “boas maneiras” quando se assiste ao dinheiro a perder valor?

Como se pode ter “boas maneiras” quando o poder de compra diminui em consequência da inflação?

Uma nota de 20 euros que hoje temos na carteira poderá comprar amanhã menos coisas do que comprava ontem.

E é isto que se entende por um debate civilizado? É isto que significa, como diz o colunista, que o debate “mostrou que é possível ter cérebro e boas-maneiras”?

Não sei, não.

Talvez o verdadeiro regresso dos intelectuais não seja o dos “bons modos”. Talvez seja o dos que, além de boas maneiras, tenham alguma coisa de verdadeiramente interessante para dizer.

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