OS GUARDIÕES DA MAÇANETA DESTRANCADA
O labirinto dos corredores de São
Bento nunca parecera tão estreito. A atmosfera na Assembleia da República,
habitualmente marcada por um formalismo cinzento, assemelhava-se agora ao
enredo de uma novela política de baixo orçamento. Nos bastidores do poder, o ar
cortava-se à faca.
Tudo começara com uma intrusão
territorial. André Ventura, de telemóvel em riste e faro mediático apurado,
cruzara a fronteira invisível do hemiciclo para invadir a sala do grupo
parlamentar da Iniciativa Liberal. Filmara o vazio do espaço, registara a ausência
dos deputados e usara as imagens para lançar a narrativa de que os liberais
desertavam das suas funções. Não há relatos de furtos ou descaminhos. A reação
da IL foi imediata e cirúrgica: uma queixa formal por violação da dignidade
parlamentar. José Pedro Aguiar-Branco, o Presidente da Assembleia, vira-se
compelido a intervir, remetendo o caso para o escrutínio da Comissão de
Transparência.
Contudo, a política partidária
tem horror ao vácuo e à escassez de drama.
Duas semanas mais tarde, o revés
— ou a ironia do destino — batera à porta do próprio Chega. O gabinete de
Ventura surgira misteriosamente "devassado". O partido apressara-se a
denunciar o extravio de documentos cruciais. Não eram papéis quaisquer:
tratava-se do sensível inquérito sobre o Ministério da Administração Interna. O
clamor de "sabotagem" ecoou de imediato nos corredores.
Às 06h55 daquela manhã de
terça-feira, o silêncio no Parlamento era absoluto, quebrado apenas pelo
restolhar rítmico da mopa da limpeza contra o mármore. O poder, afinal, também
carece de limpeza. Pouco depois, uma silhueta esguia cruzou os detetores de
metais da entrada. Era Francisco Gomes, deputado do Chega. Não trazia máscara
de espião nem gazuas no bolso, apenas a gravata desalinhada pelo cansaço
matinal. Caminhou até ao gabinete de Ventura. Olhou à esquerda. Olhou à
direita. A maçaneta cedeu sem resistência. O grande bastião da segurança
nacional fora derrotado pelo esquecimento de uma fechadura.
Duas horas mais tarde, o aparato
mediático estava montado. Ventura gesticulava perante o batalhão de câmaras
como se tivessem assaltado as reservas do Banco de Portugal.
"Desapareceram documentos vitais! Isto é um atentado à democracia!",
clamava, enquanto um assessor, em absoluto pânico, tentava sussurrar-lhe ao
ouvido que o "invasor" captado pelas câmaras de videovigilância
partilhava com eles o mesmo grupo de WhatsApp.
A tese de espionagem externa
esvaziou-se num sopro, transmutando-se num embaraçoso enredo doméstico.
Três dias após o incidente, a
sala da Comissão de Transparência exibia a solenidade de um tribunal de Estado,
embora o corpo do delito fosse uma mera peça de alumínio. À cabeceira da mesa,
Aguiar-Branco massajava as fontes, exibindo a fadiga de quem trocara a alta
diplomacia por uma mesquinha disputa de condomínio. — Senhor Deputado Francisco
Gomes — iniciou o Presidente da Assembleia, com uma voz de gravidade
eclesiástica. — Pode explicar a esta comissão o que fazia no Palácio de São
Bento às sete horas da manhã, um horário em que a esmagadora maioria dos
parlamentares ainda debate com o despertador?
Francisco Gomes ajeitou o
colarinho. Ao fundo da sala, André Ventura mantinha os braços cruzados,
processando o espetáculo que capitalizaria, minutos depois, num direto para as
redes sociais. — Senhor Presidente — defendeu-se o deputado, com a solenidade
de quem invoca o direito internacional —, o partido trabalha arduamente. A
pátria não dorme. Fui apenas... resgatar apontamentos esquecidos. A porta
estava aberta. Se há crime aqui, é a negligência de quem deixou o gabinete
destrancado!
Do outro lado da mesa, um
deputado da Iniciativa Liberal soltou uma gargalhada audível enquanto revia, no
ecrã do telemóvel, o vídeo filmado semanas antes no seu próprio reduto. O líder
do Chega, pelo menos, bafejara-os com uma boa iluminação. A ironia era
demasiado saborosa para ser digerida em silêncio: o partido que exigia
blindagem absoluta nas fronteiras do país revelava-se incapaz de policiar as
suas próprias portas.— Meus senhores — atalhou Aguiar-Branco, batendo com a
caneta na mesa para estancar o circo iminente. — O inquérito interno e os
registos analíticos dão o caso por encerrado. Não houve intrusão externa. Não
houve sabotagem do sistema. Houve, sim, um triste espetáculo que deslustra esta
casa. Felizmente, como já foi sintetizado no meio desta comédia... não há
mortos nem feridos.
A sessão foi levantada. Ventura
marchou decidido em direção aos microfones que se acotovelavam nos Passos
Perdidos, pronto para transfigurar a sua própria rábula numa conspiração global
do sistema.
Entretanto, esquecido numa pasta
digital no fundo do servidor da comissão, o inquérito ao Ministério da
Administração Interna — aquele que deveria fiscalizar as forças de segurança de
todo o país — foi discretamente arquivado sem uma única interpelação da oposição.
A cortina descera. O público aplaudia a farsa das fechaduras, alheio ao facto
de que o verdadeiro cofre fora esvaziado mesmo debaixo do seu nariz.
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