Os ‘Okupas’ do Parlamento
Se os imigrantes estiverem
indocumentados, ainda que sem culpa sua, são ilegais. Se os Lares não tiverem
alvará, ainda que sem culpa sua, são ilegais. Se os colégios não tiverem uma autorização
da entidade competente, ainda que sem culpa sua, são ilegais. Se um partido político,
como o Chega, tiver um conjunto de ilegalidades constitucionais declaradas
(invalidades de órgãos), com uma cadeia de ilegitimidades estatutárias, aí a
música é outra, não só é “legal”, como pode ocupar os seus assentos no
parlamento, ter acesso às subvenções partidárias e receber, religiosamente, os
salários compostos dos deputados ‘Okupas’.
Esta situação, que vem desde a fundação do Chega, em 2019, nunca mereceu atenção das entidades competentes, ainda que o Ministério Público, tenha aberto um inquérito (em tempos que já lá vão), alegadamente, por assinaturas falsas, sem consequências visíveis, até à data.
O partido Chega é o caso típico de «faz o que digo, mas não faças o que eu faço». Vejamos:
O Tribunal Constitucional (TC) invalidou as alterações estatutárias do Congresso de Évora (2020), porque as mudanças (como eleição direta do presidente) não constavam da convocatória, violando os próprios estatutos do partido e a Lei dos Partidos Políticos.
Como os órgãos eleitos nesse
congresso (incluindo direção nacional e conselho nacional) foram considerados
ilegais, todas as decisões tomadas por eles – como a convocatória do Congresso
de Santarém (2023) e da Convenção de Viana do Castelo (2024) – foram declaradas
nulas pelo TC. Isso inclui a eleição de André Ventura em 2024.
Daqui resultou uma solução paradoxal (vide Ac. do TC 434/2025, de 08/07). O TC determinou que apenas os órgãos eleitos na convenção fundadora (2019) têm legitimidade para convocar um novo congresso. Porém, esses membros já não exercem funções há anos, criando um impasse: o partido precisa de órgãos legítimos para convocar uma reunião, mas só os ilegítimos estão ativos.
Assim, este partido de base ilegal, promove candidaturas eleitorais, através de órgãos ilegais. Em consequência, todos os parlamentares ‘Okupas’ do Chega, são fruto do vicio de ilegalidade. A ilegalidade gera a nulidade.
Para além destas ilegalidades patentes, que em outras situações já seriam objeto de perseguição e até remigração, quando praticadas pelo Chega, recebem o silêncio e beneplácito das entidades competentes.
Estes ‘Okupas’ ilegais do parlamento, fonte de hipocrisia política, recebem o apoio de igrejas evangélicas brasileiras, enquanto defendem políticas anti-imigração, gerando acusações de incoerência. Usando símbolos do salazarismo, como "Deus, Pátria, Família e Trabalho", são herdeiros da propaganda do Estado Novo.
As ilegalidades constitucionais são um defeito estrutural, que contamina a legitimidade jurídica dos órgãos do Chega, tornando as suas decisões passíveis de anulação. Já as irregularidades denunciadas refletem disfunções operacionais, o que faz com que, a combinação de ambos os fatores, alimentam a narrativa de que o partido Chega opera em "permanente irregularidade", minando sua credibilidade perante a lei e a opinião pública e afetam o sistema democrático, no seu todo, pela existência deste abscesso.