O
Governo português acaba de desenhar a derradeira utopia da justiça social: dar
"vouchers" de até 15.000 euros para famílias carenciadas comprarem
carros elétricos. A premissa, no papel, até parece saída de um conto de fadas
ambientalista. O Ministério do Ambiente quer democratizar a transição
energética, reduzir os gases de estufa e — pasme-se — combater a exclusão
social. Afinal, quem é que nunca viu uma família no limiar da pobreza, a contar
os tostões para fechar o mês no supermercado, e pensou: "O que a esta
gente lhes faz mesmo falta é um veículo zero emissões com bateria de lítio e
autonomia para 400 quilómetros"?
O
termo "famílias carenciadas" remete-nos, por definição, para cidadãos
que lutam pela sobrevivência diária. Estamos a falar de agregados que dependem
de apoios sociais para colocar comida na mesa, pagar a renda da casa ou aviar
receitas na farmácia. São pessoas para as quais o conceito de "poupar na
manutenção automóvel" é irrelevante, simplesmente porque ter um carro já é
um luxo proibitivo.
Mesmo
que o Estado cubra generosos 90% do valor de um elétrico usado de 20.000 euros
através de um voucher, quem vive na corda bamba financeira ainda teria de
arranjar 2.000 euros do próprio bolso para pagar o restante. Para quem não tem
margem para o passe social do autocarro, 2.000 euros é uma miragem. E as
dúvidas legítimas não ficam por aqui: onde é que estas famílias vão carregar o
carro? Nas garagens privadas dos seus bairros sociais? Ou vão pagar tarifas
inflacionadas nos postos públicos da rua enquanto esperam que a Deco lhes
explique como gerir a tarifa bi-horária?
É
inegável que o setor dos transportes precisa de descarbonizar e que a transição
energética deve ser inclusiva. Mas há um erro gritante na ordem dos fatores.
Quando o volume de créditos e o orçamento de um programa desta dimensão são
canalizados para stands de automóveis em vez de irem para necessidades vitais
como a habitação, a saúde ou o reforço do cabaz alimentar, a ecologia
transforma-se em hipocrisia.
Este
plano não inclui os mais vulneráveis; exclui-os pela via do bom senso. O
Governo desenhou uma medida bonita para apresentar em Bruxelas, mas esqueceu-se
de que, na hierarquia das necessidades humanas, a fome e o teto continuam a vir
muito antes do motor elétrico. No fundo, é a versão moderna e sustentável do
clássico "se não têm pão, que comam brioche". Se não conseguem pagar
a renda, que comprem um Tesla em segunda mão.

Nenhum comentário:
Postar um comentário