sábado, 7 de novembro de 2026

PRIORIDADES ECOLÓGICAS: ONDE COMER É OPCIONAL, MAS CIRCULAR SEM EMISSÕES É OBRIGATÓRIO

 

O Governo português acaba de desenhar a derradeira utopia da justiça social: dar "vouchers" de até 15.000 euros para famílias carenciadas comprarem carros elétricos. A premissa, no papel, até parece saída de um conto de fadas ambientalista. O Ministério do Ambiente quer democratizar a transição energética, reduzir os gases de estufa e — pasme-se — combater a exclusão social. Afinal, quem é que nunca viu uma família no limiar da pobreza, a contar os tostões para fechar o mês no supermercado, e pensou: "O que a esta gente lhes faz mesmo falta é um veículo zero emissões com bateria de lítio e autonomia para 400 quilómetros"?

O termo "famílias carenciadas" remete-nos, por definição, para cidadãos que lutam pela sobrevivência diária. Estamos a falar de agregados que dependem de apoios sociais para colocar comida na mesa, pagar a renda da casa ou aviar receitas na farmácia. São pessoas para as quais o conceito de "poupar na manutenção automóvel" é irrelevante, simplesmente porque ter um carro já é um luxo proibitivo.

Mesmo que o Estado cubra generosos 90% do valor de um elétrico usado de 20.000 euros através de um voucher, quem vive na corda bamba financeira ainda teria de arranjar 2.000 euros do próprio bolso para pagar o restante. Para quem não tem margem para o passe social do autocarro, 2.000 euros é uma miragem. E as dúvidas legítimas não ficam por aqui: onde é que estas famílias vão carregar o carro? Nas garagens privadas dos seus bairros sociais? Ou vão pagar tarifas inflacionadas nos postos públicos da rua enquanto esperam que a Deco lhes explique como gerir a tarifa bi-horária?

É inegável que o setor dos transportes precisa de descarbonizar e que a transição energética deve ser inclusiva. Mas há um erro gritante na ordem dos fatores. Quando o volume de créditos e o orçamento de um programa desta dimensão são canalizados para stands de automóveis em vez de irem para necessidades vitais como a habitação, a saúde ou o reforço do cabaz alimentar, a ecologia transforma-se em hipocrisia.

Este plano não inclui os mais vulneráveis; exclui-os pela via do bom senso. O Governo desenhou uma medida bonita para apresentar em Bruxelas, mas esqueceu-se de que, na hierarquia das necessidades humanas, a fome e o teto continuam a vir muito antes do motor elétrico. No fundo, é a versão moderna e sustentável do clássico "se não têm pão, que comam brioche". Se não conseguem pagar a renda, que comprem um Tesla em segunda mão. 

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