sábado, 7 de novembro de 2026

METADE DOS JOVENS PONDERA EMIGRAR. SALÁRIO E CARREIRA PESAM NA DECISÃO.

 

«Metade dos jovens portugueses pondera emigrar», titulava um jornal, referindo que os baixos salários e as limitadas perspetivas de carreira em Portugal constituem os principais fatores que alimentam essa intenção.

Noutro jornal, podia ler-se precisamente o contrário: «Mais jovens portugueses estão a regressar a Portugal do que a sair do país».

Quando leio ou ouço, com alguma frequência, notícias sobre jovens portugueses que ponderam sair do país, ou que efetivamente o fazem para trabalhar noutros países, à procura de melhores condições de vida e de oportunidades profissionais, fico a pensar se, porventura, já nos demos conta de que fazemos parte de uma União Europeia que consagrou, nos seus Tratados, princípios fundamentais como a livre circulação de pessoas, bens, serviços e capitais.

Os jovens europeus beneficiam, há décadas, de um mercado de trabalho que abrange 27 Estados-Membros, com diferentes níveis de desenvolvimento, entre os quais se encontram algumas das economias mais desenvolvidas do mundo. Um espaço de oportunidades que está igualmente aberto aos jovens portugueses, nas mesmas condições em que está aberto aos restantes cidadãos europeus.

França, Suíça, Dinamarca, Espanha, Alemanha, Luxemburgo e Bélgica estão entre os destinos mais procurados pelos portugueses na Europa. Curiosamente, alguns desses mesmos países são também a origem de cidadãos que escolhem Portugal para viver e trabalhar.

Tudo isto para dizer que não podemos interpretar os atuais movimentos migratórios como se estivéssemos perante o fenómeno emigratório das décadas de 60 e 70 do século passado.

Os tempos são outros. Vivemos numa realidade marcada pela globalização, pela integração europeia e por uma profunda transformação das condições socioculturais das novas gerações. A procura de melhores condições de trabalho, de remuneração e de realização profissional noutros países não representa necessariamente uma rutura com Portugal, mas também o exercício de uma liberdade e de uma oportunidade que a própria construção europeia veio proporcionar.

Muitos destes jovens passaram, aliás, por programas como o Erasmus, que lhes permitiram conhecer outras realidades, contactar com diferentes culturas e experimentar formas distintas de viver e trabalhar. Para alguns, essa experiência terá sido determinante na decisão de procurar, mais tarde, um percurso profissional fora do país, regressando a lugares onde já tinham criado referências e estabelecido ligações.

O verdadeiro problema, portanto, talvez não esteja em os nossos jovens quererem sair. Está em saber se Portugal reúne condições para que queiram ficar — e, sobretudo, para que aqueles que partem sintam vontade de regressar.

Não devemos olhar para a mobilidade dos jovens como uma perda inevitável, nem confundir liberdade de circulação com incapacidade de fixação. Mas também não podemos utilizar a integração europeia como justificação para ignorar os problemas estruturais do país: os salários, a precariedade, a dificuldade de acesso à habitação e a falta de perspetivas de progressão profissional.

A Europa abriu-lhes as portas. Cabe a Portugal saber o que fazer para que essas portas também continuem abertas ao seu regresso.

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