O Apresentador de Livros
Ainda não figura nas
classificações profissionais, nem se conhece associação representativa que o
acolha. Apesar disso, o Apresentador de Livros tornou-se presença regular e até
indispensável de certa vida cultural, essa zona intermédia onde convivem literatura,
sociabilidade e uma discreta administração de prestígios.
Não é crítico literário, embora
por vezes lhe seja atribuída semelhante autoridade. Também não pertence
propriamente às letras, se entendermos por isso o paciente comércio com os
livros e as ideias. A sua especialidade é outra e talvez mais difícil de definir.
Aparece, quase sempre, antes do
autor.
Não se tome isto em sentido
cronológico, mas simbólico. O livro existe, evidentemente; o escritor também.
Mas ambos aguardam que uma terceira figura lhes conceda enquadramento,
temperatura e ocasião.
Há quem suponha que o
Apresentador de Livros é escolhido pela familiaridade com a obra. A hipótese é
respeitável, ainda que frequentemente excessiva. Na verdade, o seu valor
raramente depende da intimidade com o texto. E talvez seja esse o segredo da
função.
O Apresentador de Livros não está
preso ao incómodo da interpretação. Move-se com liberdade maior. Pode elevar-se
do romance à situação internacional, da poesia ao estado do regime, do ensaio à
pedagogia cívica, regressando ao livro apenas quando a prudência ou o relógio o
aconselham.
Não se trata de impostura. Pelo
contrário. O autor deseja-o precisamente por isso.
Um livro, por melhor que seja,
tem alcance limitado: precisa de leitores, tempo e alguma fortuna. O
Apresentador oferece coisa diversa e mais imediata — circulação, notoriedade e
o conforto de uma legitimação pública. O livro entra pela literatura; o apresentador
garante-lhe entrada pela sociedade.
Dir-se-á que tudo isto sempre
existiu, sob formas variadas. É verdade. Os salões literários, os prefaciadores
ilustres e os padrinhos ocasionais pertencem à mesma genealogia. O que talvez
seja novo é a crescente autonomia da figura.
O livro torna-se pretexto
delicado para um exercício mais vasto.
Há pouco, vinha eu a ouvir
Fernando Alves, nos Sinais do Tempo, e retenho — com o risco inevitável
das citações de memória — uma observação deliciosa. Num lançamento, um escritor
terá dito ao leitor que lhe pedia uma dedicatória: “O livro foi escrito pela
inteligência artificial, mas a dedicatória é minha.” A frase, verdadeira ou
apenas verosímil, parece conter uma pequena filosofia do nosso tempo.
Não surpreenderá que, numa época
em que já se admite que a máquina escreva, se atribua crescente importância
àquele que apresenta.
Porque o Apresentador de Livros
não apresenta apenas livros. Apresenta contextos, afinidades e
respeitabilidades. Traduz obras em sociabilidade e transforma lançamentos em
pequenos atos de ordenação pública, onde se reconhecem sensibilidades comuns e
se distribuem sinais discretos de pertença.
Não há mal nisso. As sociedades
vivem também destes rituais menores.
Talvez por essa razão o
Apresentador de Livros prospere tão naturalmente entre certos espíritos
fatigados do ruído democrático e das incertezas da liberdade, espíritos que
preferem a harmonia administrada ao desacordo espontâneo e que descobrem, sob a
aparência benigna do consenso, uma forma particularmente confortável de
autoridade.
Ignoramos se semelhante atividade
é remunerada.
Em dinheiro, não sei.
Em espécie, dificilmente será
pobre.
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