52 ANOS DEPOIS – LUTAR
POR ABRIL É (HOJE) UM ATO DE RESISTÊNCIA
Em vésperas do
quinquagésimo segundo aniversário da Revolução de Abril de 1974, esperava-se
que à celebração da data se associassem manifestações de alegria e
solidariedade pelas conquistas alcançadas, com votos renovados de
aprofundamento da democracia e do bem-estar do povo português, em liberdade.
Mas o “clima” político atual não é esse.
Muito se
conquistou — e muito mais há ainda por conquistar. As desigualdades persistem e
o fosso tende a alargar-se. Os valores democráticos são agredidos quase
diariamente, e os princípios que os sustentam são postos em causa por forças
antidemocráticas com assento parlamentar no nosso país.
A crescente onda
europeia da extrema-direita protofascista, com respaldo além-Atlântico, foi
travada in extremis nalguns contextos, mas em Portugal afirmou-se a uma
velocidade estonteante, sendo hoje uma das principais forças de representação
parlamentar. Os inimigos da democracia e do Estado de Direito democrático
beneficiam das mesmas prerrogativas daqueles que a construíram e preservaram.
Ironia do destino? Não. Como alguém afirmou: “A democracia é o pior dos regimes
políticos, excetuando todos os outros.”
Recordemos a
madrugada gloriosa de Abril que, há mais de meio século, nos devolveu a
liberdade e a democracia. Enganam-se aqueles que pensam que isto é apenas
passado. A democracia é um passado feito presente, que nos impele diariamente à
construção do futuro.
Hoje, porém, nem
todos remam para o mesmo lado — o do reforço do Estado de Direito democrático e
do aprofundamento da democracia, assente na justiça social, na igualdade de
direitos e oportunidades e numa distribuição mais solidária da riqueza. Há quem
procure desvirtuar a democracia e criar um país de “apartheids”, xenófobo,
racista e preconceituoso.
Já não se trata
apenas de um retrocesso: é o risco de regressar a uma nova “idade das trevas” —
marcada pela deterioração dos serviços públicos, pelo abandono de jovens e
idosos, pela escassez de oportunidades, pelo enfraquecimento do Estado Social,
pela valorização do supérfluo, pela banalização do discurso superficial
amplificado nas redes sociais, pela promoção do obscurantismo e por uma gestão
de recursos que não serve o bem-estar coletivo.
Cinquenta e dois
anos depois, comemorar Abril é, hoje, um ato de resistência.
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