"Hoje Portugal fica mais Portugal vs Orgulhosamente sós"
O governo atual pela boca do
ministro da presidência afirmou a frase em título, na sequência da aprovação da
lei da nacionalidade, pela AD e pela extrema-direita, através da qual
capciosamente passou a regular as entradas de cidadãos estrangeiros.
Esta ânsia em colocar na primeira
linha dos nossos problemas, a matéria da imigração, apenas serve para empobrecer
mais o nosso país e esconder outras realidades bem mais graves e fatais que
diariamente vão acontecendo e que o atual governo tende a normalizar.
O último episódio trágico na
saúde é bem ilustrativo. Em causa está a morte de uma mulher na
madrugada da passada sexta-feira à noite no Hospital Amadora Sintra depois de
dar à luz. A mulher, natural da Guiné-Bissau, tinha estado na unidade durante a
tarde por causa de um episódio de hipertensão, mas terá sido mandada para casa
com consulta marcada. A esta morte que se seguiu a morte do seu bebé, recebeu o
seguinte comentário da ministra: “a maioria dos casos são grávidas sem
médico de família, "recém-chegadas a Portugal, com gravidezes
adiantadas". Nestes casos, referiu a ministra, algumas destas mulheres
"não têm dinheiro para ir ao privado", "nem falam
português", não "foram preparadas para chamar o socorro" e por
vezes "nem telemóvel têm".
É deprimente a desumanidade
inscrita nestas palavras. Em vez de se mostrar consternada com o que tinha
acabado de acontecer e apresentar sentidas condolências há família com
preocupação imediata de averiguar o que se tinha passado, a ministra, resolveu
timbrar estas grávidas, nos seguintes termos: Que era "uma utente natural
da Guiné-Bissau" (curiosamente a ministra também é natural da Guiné
Bissau) “daquelas que não teve acompanhamento da gravidez até à data que entrou
no hospital", "não têm dinheiro para ir ao privado", "nem
falam português" e "nem telemóvel têm".
Esta declaração absolutamente
preconceituosa e desprovida de humanidade resumem bem o perfil desta ministra
que, tratando assim os seus conterrâneos, não custa a perceber como trata a
saúde de todos nós.
Entretanto, veio agora a saber-se
que esta declaração pública destemperada, nem sequer correspondia a verdade, o
que terá dado origem a demissão do diretor da instituição hospitalar, logo aceite
pela ministra.
Este é o “karma”. Enquanto estas demissões e nomeações se repetem a um ritmo
alucinante, a demissão da ministra da saúde que seria um ato de higienização da
política, há muito que continua por realizar. Assim, torna se cada vez mais
difícil a um profissional de saúde ver-se representado por esta ministra, nem o
SNS resiste a tantos atropelos.
Agora que a vaidade dos pobres de
espirito do “Portugal fica mais Portugal”
nos vai enterrando em buracos cada vez mais fundos, as instituições mergulham
numa apatia sem precedentes colocando em causa a própria democracia.