AS MOÇAS DE NETANYAHU
Um grupo de jovens portuguesas do TikTok decidiu
abraçar a causa de Benjamin Netanyahu e a política do seu Governo em relação ao
povo palestiniano, em Gaza e na Cisjordânia, e à população libanesa.
A história está repleta de exemplos de
desumanidade e de extrema crueldade, inclusive — e, por vezes, sobretudo —
entre aqueles que se dizem devotos cristãos, como se apresentam estas “moças do
TikTok”.
Este desprezo pela vida humana coloca estas
“moças do TikTok” perante uma questão que a História já conheceu demasiadas
vezes: até onde pode chegar a aceitação da violência, da desumanização do outro
e da eliminação de populações inteiras em nome de uma causa política ou
religiosa?
Foi assim, num passado não muito distante, na
Alemanha de Hitler.
Sabe-se hoje que as mulheres que apoiaram o
nazismo desempenharam papéis muito mais complexos do que a imagem tradicional
da mulher alemã confinada ao lar. Milhares aderiram à ideologia nazi e
participaram, de diferentes formas, no funcionamento do regime: foram
enfermeiras, funcionárias administrativas, professoras, agentes de propaganda
e, em alguns casos, guardas em campos de concentração.
Investigações históricas demonstraram, também, que
centenas de milhares de mulheres alemãs se deslocaram para os territórios
ocupados da Europa de Leste. Algumas trabalharam como secretárias e
funcionárias da administração nazi; outras participaram, enquanto enfermeiras,
em programas de eutanásia de doentes e prisioneiros; outras ainda acompanharam
oficiais das SS e apoiaram, direta ou indiretamente, a violência do regime.
Milhares de mulheres serviram como vigilantes nos
campos de concentração e extermínio, tendo algumas participado diretamente no
sistema de terror e demonstrado uma extrema crueldade na gestão dos
prisioneiros.
O regime nazi promoveu publicamente a imagem da
mulher como guardiã da “raça ariana”, essencialmente destinada à maternidade e
à administração do lar. Mas, na realidade, aproveitou também o entusiasmo e a
colaboração de muitas mulheres em diversas áreas burocráticas, administrativas,
propagandísticas e repressivas do Estado totalitário.
É por isso que a História nos ensina que a
responsabilidade pela violência política e pelos crimes contra a humanidade
nunca pode ser atribuída apenas aos homens que ocupam o poder. Também aqueles
que os apoiam, legitimam ou ajudam a normalizar as suas políticas devem ser
confrontados com as consequências das suas escolhas.
Estas “moças portuguesas do TikTok”, candidatas a
uma dessas missões de apoio e propaganda, poderão, entretanto, ver o seu
projeto de “vida” política interrompido se Netanyahu for derrotado nas próximas
eleições em Israel.
Seria, no mínimo, uma curiosa ironia que aqueles
que se apresentam como profundamente cristãos acabassem por assistir à queda
política de Netanyahu. Talvez fosse, essa sim, uma pequena obra de Cristo.
E talvez, depois, pudesse avançar-se para a
execução do mandado de detenção emitido pelo Tribunal Penal Internacional
contra Netanyahu — caso entretanto outros obstáculos jurídicos ou políticos não
o impeçam — e, naturalmente, sem esquecer os processos de corrupção que há anos
enfrenta perante os tribunais israelitas.
Seja como for, o problema ultrapassa largamente
estas “moças portuguesas do TikTok”.
A defesa ou a justificação da violência contra
populações civis, da desumanização de um povo e da eliminação dos seus direitos
fundamentais é algo suficientemente monstruoso para que a existência de
pequenos núcleos de apoiantes destas ideias, em diferentes países, constitua um
sinal de alarme para todos nós.
Porque a História já demonstrou, de forma
trágica, que os grandes crimes contra a humanidade não começam necessariamente
com aqueles que apertam o gatilho.
Começam muitas vezes antes: quando se transforma
o outro em inimigo absoluto; quando se aceita que algumas vidas valem menos do
que outras; quando se justifica a violência em nome de uma causa; e quando a
propaganda consegue transformar a crueldade em virtude.
Uma última curiosidade.
Alguém tão conservador como estas “moças
portuguesas do TikTok” lembrar-se-ia de utilizar uma aplicação criada numa
China comunista para difundir ideias que, no mínimo, revelam uma preocupante
proximidade com posições autoritárias e profundamente fascizantes?
A História, às vezes, também tem sentido de
humor.
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