segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 AS MOÇAS DE NETANYAHU

Um grupo de jovens portuguesas do TikTok decidiu abraçar a causa de Benjamin Netanyahu e a política do seu Governo em relação ao povo palestiniano, em Gaza e na Cisjordânia, e à população libanesa.

A história está repleta de exemplos de desumanidade e de extrema crueldade, inclusive — e, por vezes, sobretudo — entre aqueles que se dizem devotos cristãos, como se apresentam estas “moças do TikTok”.

Este desprezo pela vida humana coloca estas “moças do TikTok” perante uma questão que a História já conheceu demasiadas vezes: até onde pode chegar a aceitação da violência, da desumanização do outro e da eliminação de populações inteiras em nome de uma causa política ou religiosa?

Foi assim, num passado não muito distante, na Alemanha de Hitler.

Sabe-se hoje que as mulheres que apoiaram o nazismo desempenharam papéis muito mais complexos do que a imagem tradicional da mulher alemã confinada ao lar. Milhares aderiram à ideologia nazi e participaram, de diferentes formas, no funcionamento do regime: foram enfermeiras, funcionárias administrativas, professoras, agentes de propaganda e, em alguns casos, guardas em campos de concentração.

Investigações históricas demonstraram, também, que centenas de milhares de mulheres alemãs se deslocaram para os territórios ocupados da Europa de Leste. Algumas trabalharam como secretárias e funcionárias da administração nazi; outras participaram, enquanto enfermeiras, em programas de eutanásia de doentes e prisioneiros; outras ainda acompanharam oficiais das SS e apoiaram, direta ou indiretamente, a violência do regime.

Milhares de mulheres serviram como vigilantes nos campos de concentração e extermínio, tendo algumas participado diretamente no sistema de terror e demonstrado uma extrema crueldade na gestão dos prisioneiros.

O regime nazi promoveu publicamente a imagem da mulher como guardiã da “raça ariana”, essencialmente destinada à maternidade e à administração do lar. Mas, na realidade, aproveitou também o entusiasmo e a colaboração de muitas mulheres em diversas áreas burocráticas, administrativas, propagandísticas e repressivas do Estado totalitário.

É por isso que a História nos ensina que a responsabilidade pela violência política e pelos crimes contra a humanidade nunca pode ser atribuída apenas aos homens que ocupam o poder. Também aqueles que os apoiam, legitimam ou ajudam a normalizar as suas políticas devem ser confrontados com as consequências das suas escolhas.

Estas “moças portuguesas do TikTok”, candidatas a uma dessas missões de apoio e propaganda, poderão, entretanto, ver o seu projeto de “vida” política interrompido se Netanyahu for derrotado nas próximas eleições em Israel.

Seria, no mínimo, uma curiosa ironia que aqueles que se apresentam como profundamente cristãos acabassem por assistir à queda política de Netanyahu. Talvez fosse, essa sim, uma pequena obra de Cristo.

E talvez, depois, pudesse avançar-se para a execução do mandado de detenção emitido pelo Tribunal Penal Internacional contra Netanyahu — caso entretanto outros obstáculos jurídicos ou políticos não o impeçam — e, naturalmente, sem esquecer os processos de corrupção que há anos enfrenta perante os tribunais israelitas.

Seja como for, o problema ultrapassa largamente estas “moças portuguesas do TikTok”.

A defesa ou a justificação da violência contra populações civis, da desumanização de um povo e da eliminação dos seus direitos fundamentais é algo suficientemente monstruoso para que a existência de pequenos núcleos de apoiantes destas ideias, em diferentes países, constitua um sinal de alarme para todos nós.

Porque a História já demonstrou, de forma trágica, que os grandes crimes contra a humanidade não começam necessariamente com aqueles que apertam o gatilho.

Começam muitas vezes antes: quando se transforma o outro em inimigo absoluto; quando se aceita que algumas vidas valem menos do que outras; quando se justifica a violência em nome de uma causa; e quando a propaganda consegue transformar a crueldade em virtude.

Uma última curiosidade.

Alguém tão conservador como estas “moças portuguesas do TikTok” lembrar-se-ia de utilizar uma aplicação criada numa China comunista para difundir ideias que, no mínimo, revelam uma preocupante proximidade com posições autoritárias e profundamente fascizantes?

A História, às vezes, também tem sentido de humor.

 

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