sábado, 19 de abril de 2025

 Aos Meus Netos

 Aos meus netos, que sabem que o 25 de Abril não foi escrito por códigos ou algoritmos frios, mas por mãos que, cansadas de silêncio, arrancaram espinhos ao medo e plantaram cravos nos canos das espingardas. 

Nenhuma IA desenhou a coragem da madrugada em que os tanques viraram flores, nem programou o tremor das vozes que, em segredo, trocaram versos de resistência enquanto o rádio anunciava “Grândola” como senha. 

 A inteligência artificial não sonha. 

Não entende o cheiro da terra molhada após décadas de seca,

nem o peso das chaves atiradas às janelas quando o povo descobriu que as grades eram mentira. 

 Há histórias que só o sangue escreve:  o de Salgueiro Maia, pulsando nas têmporas, o das mães que costuraram bandeiras de esperança, o dos presos políticos que, mesmo sem luz, desenhavam liberdade nas paredes da cela. 

 Netos meus, guardem isto: 

o algoritmo não inventa abraços,

não tece a solidariedade das ruas,

não ouve o silêncio quebrado por uma canção. 

A revolução foi um suspiro humano,

um "até aqui" de gente comum

que ousou trocar ordens por perguntas. 

 E se um dia duvidarem,

lembrem-se: 

as máquinas não choram

quando leem cartas de exílio,

nem sabem o sabor do pão

partido em abril. 

 Porque a memória é um ato de resistência, o 25 de Abril não cabe em redes neurais:  ele é raiz, é cravo, é verso roubado ao esquecimento. 

E vocês, netos, são a prova viva de que a liberdade não se atualiza em softwares — renasce, sempre, nas mãos que a constroem. 

Para que nunca confundam a fria precisão das máquinas com o caos quente de sermos humanos.

 

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