domingo, 23 de outubro de 2022

‘DIÁLOGO APÓCRIFO’

 Ano de XXI – Lugar de Belém

Tema: Abuso sexual de menores na igreja católica de Portugal

 - O Bispo em linha, diz a telefonista.

- Estou – disse Sua Excelência.

- Estou sim, disse o Bispo.

- Vossa Excelência Reverendíssima, recebi uma denúncia de abusos sexuais sobre uma criança, praticados (alegadamente), numa paróquia sobre a sua alçada. Antes de comunicar às entidades competentes, dou-lhe conhecimento desta denuncia, para os fins que entender por conveniente. Claro que muito me penaliza, enquanto cristão, tomar conhecimento deste tipo de situações que, embora me pareça serem inexpressivos o número de casos desta natureza, na nossa igreja, comparado com os milhares se não milhões de casos de que se tem conhecimento, por esse mundo fora, ainda assim me desgosta.

- Agradeço o seu cuidado e atenção, embora tenha opinião própria sobre o assunto, disse o Bispo. - Na verdade, sou daqueles, no seio da nossa igreja, que pensa que esses casos, se existiram, reportam-se a uma época em que esse tipo de comportamentos entre os sacerdotes e as crianças não eram reprovados visto que não tinham a censura nem a dimensão negativa que hoje se lhes atribui. Como sabe, aliás, o abuso sexual de menores não é "um crime público" e por isso não há (havia) obrigatoriedade de denúncia, como diz ‘acertadamente’ o Dom Linda. - Hoje, algumas coisas já sabemos que foram verdade. Que coisas foram essas, estão por apurar. " Mesmo assim, não podemos "julgar o passado com os critérios de hoje".

- Repare, Sua Excelência, disse o Bispo: ainda há dias uma “ovelha” do nosso rebanho, tornou público um testemunho, em que dizia ter sido abusada e violada por um padre, quando tinha apenas 13 ou 14 anos, de quem veio a ter um filho. Disse, nesse testemunho público, que pediu conselho, ao Dom Linda, contando-lhe "que, mesmo sendo menor, tinha um envolvimento com o padre Heitor”, ao que Dom Linda terá respondido, “que a culpa era dela, já que ela é que andava atrás dele".

- Ora, consultado Dom Linda, este respondeu com toda a franqueza, o seguinte: “não me consigo recordar minimamente de nada parecido com essa denúncia”.

- Vamos duvidar de Dom Linda?

- Poderá Vossa Excelência, como eminente jurista que é, interrogar-se: então se a criatura tem um filho de um padre, e se esse padre, foi afastado da igreja, justamente, por esse caso, como é que Dom Linda não se lembra dele, ainda por cima, quando a vítima o diz ter procurado? É que nem todas as violações de menores na igreja perpetradas por sacerdotes geraram filhos e o crime não se deu numa grande metrópole, mas sim em Vila Real, como é possível esta falta de lembrança?

- Porventura, terá razão Vossa Excelência para essa interrogação, mas são coisas do divino, não nos compete a nós ajuizar, disse o Bispo.

- Despediram-se, como bons amigos, desejando um ao outro “a Paz do Senhor”!...

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